| |
Até que ponto se pode chegar em nome do amor? O que, de fato, é amor? Simbioses, fantasmas de um passado não resolvido, medo do futuro incerto, receio da solidão, necessidade de carinho, de sentir-se útil... O que se faz (ou não se faz) por alguns momentos de carinho, sexo, prazer, companhia... Perversa é a explicação ou indagação de tudo isso que se chama apenas... "amor".... Contos fundamentados em casos atendidos em consultório.
Atenção os contos estão na sequencia, não há links. Para le-los é só rolar esta pagina.
Indice:
Não fostes tão longe (poesia)
O homem proibido (conto em 1 capitulo com 9 cenas)
Ela ouvia boleros (conto em um capitulo)
Duas Anas, um caminho (conto em um capitulo)
Simbiose fatal (em 1 capitulo)
Rainha dos congelados (em1 capitulo)
Não fostes tão longe (poesia)
Não fostes tão longe
Que eu não te possa alcançar
Não estás na distância infinda
Que eu não te possa sentir
Não morrestes para a vida
Porque não te queres entregar
Se ainda podes imaginar
Meus seios a te esperar
Minha dança a te seduzir
Meu colo a te amparar
Se ainda me podes sentir
Então, ainda há o que amar...
Lou de Olivier publicado em 03/02/05
Conto 1:
O homem proibido, By Lou de Olivier
Capitulo I, cena I
Era madrugada e Ana tentava dormir. Teria uma participação importante num simpósio pela manhã e, talvez por isso mesmo, não conseguisse relaxar, menos ainda dormir... Rolava de um lado a outro da cama, suava muito e parecia prever que, em alguns minutos, aconteceria um fato que mudaria totalmente sua vida...
O telefone de emergências tocou e ela nem sequer se espantou, parecia mesmo esperar por isso... Era um pai desesperado, pedindo que ela atendesse sua filha que estava numa forte crise depressiva. Acalmou-o, anotou o endereço e, após desligar, vestiu-se às pressas e saiu em disparada.
Meia hora depois já estava atendendo a paciente e tudo já estava sob controle, ao menos por aquela noite... Mais calmo, o pai desabafou sua angustia com Ana e ela percebeu a necessidade de terapia daquela família, especialmente da filha primogênita, Flavia, que apresentava um quadro muito grave. Ana combinou que retornaria dois dias depois para dar inicio às sessões de Flavia.
Ana havia jurado que não mais atenderia pacientes desta forma, era muito desgastante. Era uma Psiquiatra que havia seguido pelo mestrado e doutorado em Psicologia na busca por um melhor entendimento de seus pacientes. Porém, ao pegar casos em que atuava tanto psiquiátrica quanto psicologicamente, acabava se desgastando muito e prometera a si mesma que nunca mais atenderia assim. Preferia apenas fazer o tratamento medicamentoso e indicar uma amiga para o atendimento psicológico. Mas este caso a intrigou...
Flavia, a paciente, havia balbuciado algumas palavras, Ana não entendera bem mas percebeu que Flavia falava de seu irmão... Ana imaginou ser alguma discussão, alguma magoa, mas logo o pai desfez essa duvida. O filho estava em viagem, há mais de uma semana nem se falavam ao telefone... Não poderia ter causado nenhum mal que justificasse a súbita depressão de Flavia. Sem saber bem porque, Ana já estava fascinada pela estória que nem bem começava a conhecer. E mal sabia Ana os caminhos obscuros que percorreria para entender essa trama do destino...
Cena 2
Ana estava acabada, sua explanação no simpósio havia sido um fracasso, estava dispersa, sonolenta e acabou fazendo um papel ridículo. Por mais que tentasse se concentrar na palestra que ministrava, não conseguia parar de pensar em Flavia e em como faria para decifrar esse enigma. Uma jovem rica, aparentemente saudável, falando três idiomas, com apenas 23 anos já tendo viajado boa parte do mundo, com um namorado maravilhoso, o que, afinal, faltava a esta garota que a fazia tão depressiva e falando em suicídio?
Claro que precisava levar em conta que a mãe a abandonara quando ainda era adolescente, isso, sem duvida, era um trauma. Mas a mãe também abandonara o irmão e o pai de Flavia e os dois pareciam ter superado muito bem esse abandono. O pai, inclusive, havia se casado novamente e a madrasta de Flavia era um doce de pessoa. Tratava Flavia como uma filha legitima e não havia aparentemente um bom motivo para Flavia agir de forma tão desanimada diante da vida...
Ana foi interrompida em seus pensamentos. A organizadora do simpósio a chamava para uma conversa, perguntava o que Ana tinha para estar tão dispersa e ter se saído tão mal diante do publico. Ana não sabia o que dizer, disse apenas que andava meio estressada e que precisava tirar umas férias. Dizendo isso, Ana caminhou para a saída sem sequer despedir-se. Nada mais importava a ela, somente descobrir o intrigante motivo que levara Flavia a uma tentativa de suicídio...
Cena 3
Ana chegou à mansão dos Guimarães, passou pelo enorme portão cercado por seguranças e dirigiu até a porta da frente. Era um longo caminho até chegar a entrada da mansão e Ana diminuiu a marcha, olhava as grandes árvores e a bela paisagem que rodeava a mansão e, com isso, ganhava tempo pois, se por um lado ela ansiava em ver Flavia e decifrar este enigma, por outro lado, sentia medo. Algo lhe dizia que estava caminhando para um labirinto sem chegada nem saída.
Respirou fundo, desceu do carro com passos decididos...não precisou tocar a campainha. A porta já estava aberta e a educada senhora a atendeu. Amélia era a governanta sempre gentil e atenta a tudo na mansão. Amélia recepcionou Ana, perguntou se queria algo para beber, Ana respondeu que estava tudo bem, não queria nada além de ver Flavia imediatamente.
Amélia conduziu Ana até a suíte da jovem e deixou-as a sós. Por algum tempo, um silêncio tenso inundou o ambiente, fazendo-se ouvir apenas o som do ar condicionado. Por fim, Ana arriscou:
- Como está, Flavia? Melhor?
- Depende... Em relação a quê?
- Você estava bem deprimida quando a vi há dois dias... Até tomou uns comprimidos a mais, não é? (Ana falou em tom de brincadeira tentando descontrair a conversa, mas Flavia continuou friamente)
- Não sei do que está falando, doutora. Eu apenas esqueci que tinha tomado um comprimido e tomei outro em seguida.
- Ah, claro. Desculpe-me, eu não soube me explicar. É claro que uma jovem tão bonita como você, com saúde, um namorado lindo, apaixonado, uma família tão unida... Enfim, sendo tão feliz, jamais pensaria em tomar um medicamento de forma exagerada...
- Doutora...Eu não gosto de fingimentos. Eu não sou feliz, minha família não é unida, ou melhor, eles são unidos mas não estou unida a eles e... meu namorado é apenas uma distração para mim. (Ana não respondeu. Olhou fixamente para Flavia tentando encontrar as palavras certas, algo que fizesse Flavia confiar mais nela e se abrir. Mas por mais que pensasse, não conseguia encontrar nada a dizer, calou-se. Flavia continuou ironicamente) - já desistiu, doutora? (esboçou um sorrido cínico) Pensei que fosse começar com aquele inútil discurso “Como assim?” Desenvolva melhor este raciocínio”... (rindo) “hum hum” “hãhã”...Fala serio, doutora... Será que alguém testou esta técnica de terapia com os ratinhos no laboratório? Algum deles se curou? (gargalhando)
- Flavia (respondeu Ana, com serenidade), não sou assim... Talvez você tenha desacreditado de terapias, talvez antes de mim, muitos tenham apenas te ouvido e te deixado sem respostas mas eu... Falo, direciono meus pacientes. Eu me envolvo na história e não descanso enquanto não resolver da melhor forma possível (pausa) Olha, Flavia, te peço... Confia em mim. Seja o que for que sinta ou pense ou viva, me fale sem reservas. Eu vou ouvir, direcionar, estudar seu caso e te prometo, vou te ajudar a encontrar uma solução para você. Confia em mim?
- Não vai gostar do que vai saber, doutora. E, se pretende se envolver nesta história, acabará sendo minha rival (gargalhando) se souber a verdade, vai rasgar seu diploma e ir vender alface na feira...
- Vamos apostar, Flavia? (respondeu Ana, serenamente) se eu me espantar muito com seu relato e não conseguir te ajudar, prometo que rasgarei mesmo meu diploma e farei qualquer outra coisa na vida. Não sei se me sairia bem vendendo alfaces, mas procurarei qualquer outra profissão, mas por favor, permita que eu tente, vamos ao menos tentar?
Por um tempo que pareceu interminável, Ana e Flavia se olharam em silêncio ate que Flavia deixou sua mascara de segurança cair. Cabisbaixa e já soluçando disse:
- Não posso te dizer quem sou eu, sou um ser desprezível, tenho nojo de mim mesma e só morrendo poderei ter paz!!!
Cena 4
Ana tirou o roupão e entrou na hidro que jorrava água quente. Precisava relaxar. Não tinha certeza de ter tomado a decisão correta. Havia interrompido a sessão de Flavia, remarcando para dois dias depois. Precisava de tempo para pensar em tudo o que Flavia relatara. Precisava admitir, era mesmo uma revelação aterradora e Ana já começava a pensar que, talvez, precisasse mesmo mudar de profissão.
Tentou sorrir, imaginando-se numa feira, gritando “Olha a alface fresquinha, freguesa” Porém a cena não tinha graça nenhuma e Ana sequer esboçou um sorriso. Respirou profundamente, fechando os olhos e sentindo a água em seu corpo... O barulho do motor da hidro parecia hipnotizá-la e ela só pensava em passar ali o resto da noite sem nenhuma vontade de ir a lugar algum.
Demorou a ouvir o som do telefone que tocava com insistência, atendeu:
- Alo? (atendeu sonolenta)
- Puxa, Ana, é a terceira vez que ligo em seguida... Não estava em casa ou não ouviu?
- Oi, amor, desculpe-me. A campainha do telefone está no volume mínimo... a hidro está ligada... Não ouvi.
- Como a hidro está ligada? Você está tomando banho uma hora dessas?
- Mas qual o problema?
-Ana, são mais de oito horas da noite, a opera começa as nove em ponto e sabe bem que precisamos passar na casa do Mauricio e da Clara antes... Você, simplesmente, deveria estar pronta.
- Paulo, meu amor, me perdoa... Eu esqueci completamente...
- Assim como esqueceu meu aniversário na semana passada, esqueceu o jantar da minha premiação há quinze dias... Ainda lembra-se de onde mora? Seu nome completo? Essas coisas básicas... Ainda lembra?
- Não seja irônico. Sabe que eu estou envolvida numa nova pesquisa e eu peguei um caso que...
- Não quero saber de caso algum além do nosso, Ana. Aliás, acho que você deve se envolver mesmo neste novo caso. Como sempre, envolva-se, mate-se, pra mim tanto faz agora.
- Você está sendo muito grosso, Paulo, eu vou te explicar.
- Não tem o que explicar, Ana. Você dá jeito em todos os casos, mas não vive o seu. Conserta a vida de todos menos a sua. Ama todos os seus pacientes menos a mim... Olha o relógio, vê as horas?
- Não tenho um relógio aqui no banheiro...
- São oito e vinte... Vou direto para a casa do Mauricio, pego ele e a Clara e vou com eles. Quem sabe eu conheça alguém interessante na ópera. Pode ficar ai com seus doidinhos, mas cuidado quando eles se pendurarem no lustre pra se balançar. Saia de baixo senão podem despencar em cima da sua cabeça.
Gargalhando histericamente, Paulo desligou, deixando Ana inerte. Sem esboçar nenhuma reação, Ana apenas recolocou o fone no gancho, fechou os olhos e adormeceu dentro da hidro...
Cena 5:
Pontualmente, Ana estacionou seu carro em frente a mansão. Já estava estabelecido o ritual de todas as terças e sextas, as 17:00 horas. Ela parava seu carro, o manobrista a atendia, em seguida, a simpática Amélia a recepcionava na porta, oferecia-lhe algo para beber, Ana recusava e ia diretamente à suíte de Flavia para tentar decifrar a estranha história e achar uma solução viável.
Porém, naquela sexta-feira quente de verão, algo mudou o ritual e mudaria também o rumo desta conturbada história. Sentado displicentemente no grande sofá estava um homem alto, musculoso, a pele clara contrastando com os cabelos muito negros. A camisa aberta deixava a mostra o peito largo e peludo e ao dirigir-se a ele para cumprimentá-lo Ana percebeu seus lindos olhos verdes.
Amélia o apresentou a Ana. Era ele... Ricardo... As coisas começavam a ficar mais claras. Ana agora conseguia entender o porque do trágico rumo daquela história familiar. Era mesmo quase impossível não sentir um desejo selvagem por aquele homem. Mas, obviamente, Ana nada demonstrou. Apenas sorriu amigavelmente e apertou a mão dele num cumprimento cordial, até porque ele não parecia nem um pouco abalado com a presença de Ana. Ela sim parecia que iria entrar em órbita somente por tocar a mão dele, porém, Ricardo, provavelmente já acostumado a causar essas reações nas mulheres, parecia nem notá-la.
Tentando manter-se calma, Ana pediu licença e dirigiu-se ao quarto de Flavia que a recebeu com ironia.
-Então, doutora, você o conheceu?
- Ah, acho que regredimos. Você não me chamava de doutora há semanas. Porque a formalidade agora?
- Como disse no inicio, vamos ser rivais...
- Não diga bobagens, Flavia. Estou aqui como profissional
- Dá pra ver que está ruborizada, posso sentir seus pelos arrepiados, olha seu braço como está.
(Ana respirou profundamente, estava mesmo totalmente alterada. Deveria ter se recomposto antes de se colocar diante de Flavia. Agora era tarde, tentou se justificar mas não havia argumento. Pensou então em ser franca, como sempre)
-Ok, Flavia, sem fingimentos. Seu irmão é mesmo de tirar o fôlego. Estou totalmente desconcertada, mas vou me recompor e vamos fazer nossa sessão normalmente. E pode ter certeza de que não acontecerá mais. Eu me controlarei bem caso nos encontremos novamente...
- E ele? Irá se controlar?
- Como assim? Não entendi.
-Ele quis te conhecer. Eu comentei sobre nossas sessões e ele quis saber quando viria, disse que queria te conhecer.
- Ele não demonstrou isso. Me pareceu que não se importou nem um pouco em me ver.
-Ele costuma ser assim, fingido, dissimulado, cafajeste (rindo) Quem sou eu para falar que ele seja cafajeste...
- Ele parece mais velho do que na verdade é. (disse Ana, tentando redirecionar o dialogo) Eu o imaginava um menino de 20 anos e, no entanto, ele parece um homem de trinta ou mais...
- Ok, doutora. Queria quebrar o clima, já conseguiu... O que vai querer saber hoje?
- O que quer me dizer? O que acha importante que eu saiba para direcionarmos suas decisões?
- Acho que vai adorar saber como nossa mãe nos expulsou da vida dela...
- Se quer me falar sobre isso, por favor, comece...
Cena 6:
Distraidamente, Ana entrou em seu carro já ligado pelo manobrista e saiu dirigindo lentamente, relembrando cada palavra e cada gesto de Flavia. Tentando ligar os pontos e encontrar alguma brecha para resolver o caso mas parecia não haver nada que ela pudesse fazer...
Passou pelo portão da mansão, acenou um agradecimento aos seguranças e entrou na estrada. Dirigiu por alguns quilômetros apenas ouvindo a musica que vinha do CD... Uma voz a fez sobressaltar-se, emitir um grito de espanto e frear bruscamente.
- Ahhh! (pausa) O que está fazendo aqui no meu carro, garoto?
- Garoto? Pensei que eu já fosse um homem (rindo irônico) De qualquer forma, resolvi passear um pouco com você, doutora.
- Não estou aqui para passear, estou aqui trabalhando, tentando ajudar sua irmã a não se suicidar.
- Ela não vai se matar... Apenas precisa chamar a atenção de todos e, principalmente, minha.
- Pensei que a terapeuta aqui fosse eu.
- Desculpe, não quis questionar sua opinião, é que já estou acostumado com essas cenas da minha irmã. Quando viajo, namoro, enfim, quando faço qualquer atividade normal, ela finge que vai se matar pra ver se me sinto culpado e volto para nossa doença...
- Ok, você venceu. Vamos conversar sobre isso... Venha para o banco da frente. Vamos procurar um lugar tranqüilo e vamos conversar.
- Conheço um lugar ótimo onde ninguém nos incomodará (Disse Ricardo já sentando-se ao lado de Ana) Vou te ensinar o caminho.
Alguns minutos depois, Ana entrava por uma espécie de clube de campo onde se podia alugar chalés. Diminuindo a marcha do carro, ela questionou.
- Não acho uma boa idéia conversarmos num chalé.
- Por que, doutora? Não confia no seu auto controle? Prometo que só vou conversar com você e não farei nada que nós dois não estejamos querendo.
- Você é um menino bem pretensioso... (disse Ana, enquanto estacionava no guichê) Não há nada que possamos querer juntos, além de resolver este caso entre você e sua irmã... (Ricardo desceu para pagar o período e pegar a chave, voltou ao carro, dizendo)
- Posso contar minha versão? Depois você decide se apenas quer resolver isso?
- Por favor...
- Por aqui, doutora (disse abrindo a porta do chalé e afastando-se para dar passagem à Ana) - Posso te chamar de Ana ou preciso continuar com as formalidades?
- Pode me chamar de Ana e eu te chamarei de Ricardo. Prometo que não serei mais irônica chamando-o de garoto nem menino, ta?
- Assim é melhor... Vou ligar a TV pra descontrair enquanto eu tomo um banho, ta?
- Banho? Acho desnecessário tomar banho para termos uma simples conversa.
- Estou muito suado, o calor me deixa irritado e prometo que não demorarei. (Dizendo isso, Ricardo se encaminhou ao banheiro, antes porém pegou a chave do chalé) Vou levar a chave comigo pra você não conseguir fugir...
- Eu não poderia fugir. Você está com o comprovante de pagamento. (rindo, Ricardo entrou no banheiro. Ana conseguia ouvir o som da ducha ligada enquanto pensava) - Afinal, o que estou fazendo aqui?
Cena 7:
Olhando pela janela do chalé, Ana respirava nervosa e agitada. Estava arrependida por estar ali. Não estava sendo paga para atender Ricardo e não achava que aquela conversa pudesse ser produtiva. Decidiu que iria embora. Não tinha sentido ficar mais nenhum minuto naquele local. Pensou em pular a janela mas a saia que usava era muito justa, não conseguiria. Talvez, se tirasse a saia mas, como poderia pular a janela semi nua?
Neste momento sentiu a presença de Ricardo, não virou-se para olhar mas sentiu que ele se aproximava dela, suspirou...
- Demorei?
- O suficiente para que eu pudesse pensar e decidir que não quero ter essa conversa contigo.
- Tem razão, não estou pagando sua hora
-Não é isso, eu...(afastou-se e sentou-se, constrangida)
-Quanto cobra por sessão, Ana? Pode dizer, pagarei.
- O valor não é problema... é essa situação... Eu não poderia estar aqui com você... Nesses trajes e...
- Acabei de tomar banho, não tem sentido vestir minha roupa toda suada, não tenho outra pra vestir... Natural que eu fique somente de toalha, não acha?
- Ricardo...vamos ser práticos. Você não precisa me pagar, mas por favor, seja breve. Diga o que tem a dizer e vamos embora, ok?
- Ok, doutora...O que minha irmã te falou?
- Não posso dizer. Somente ela e eu podemos saber o que é dito em uma sessão. Eu não diria nem a um policial ou a um padre ou a quem quer que fosse, menos ainda a você que é parte da situação e sabe bem disso.
- Então, vou te dizer minha versão e você compara como quiser.
-ok, sou toda ouvidos...
- E pernas... Sabe que tem pernas lindas? (Ana arrumou-se na cadeira, puxando a saia ao Maximo para cobrir as pernas) - desculpe... Achei que gostaria de um elogio (pausa tensa) - Bem... Eu não me lembro bem de como começou esta loucura entre nós mas acho que foi quando eu tinha doze anos e a Flavia tinha quinze anos... (pausa) A Flavia falou que eu tinha muita intimidade com minha mãe? (Ana apenas suspirou, sem nenhuma vontade de dizer nada) - Ok, você não vai falar nada dela, ne?
-Conte-me a sua versão, por favor.
- Meu pai viajava muito e, sempre que ele viajava, eu dormia com a minha mãe. Ela dizia ter medo de dormir sozinha... Isso aconteceu sempre mas me lembro com mais detalhes a partir de quando eu tinha uns oito anos. Minha mãe me abraçava, me beijava bastante e pedia que eu tocasse seus seios...(Ana engoliu em seco mas nada disse) Às vezes, eu beijava os seios da minha mãe, em outras vezes, eu os sugava mas era só isso que fazíamos... Eu acho que ela era muito carente ou meu pai que não a acariciava, sei lá... Enfim, sempre que eu dormia com ela, fazíamos esse ritual e depois dormíamos abraçados...
- Desculpe-me, eu preciso beber algo.
- Eu pego pra você.
-Não, pode deixar . Eu mesma pego (disse Ana já se dirigindo ao frigobar) Pode continuar, estou ouvindo.
- Bem, eu achava isso normal, Pensava que todos os meninos que dormiam com a mãe faziam isso. Eu não tinha referencias... Não tinha nenhum amigo de minha idade para comparar. Não íamos a escola, não convivíamos em sociedade. Sempre fomos isolados do mundo. Os professores vinham em nossa casa para nos alfabetizar, ensinar matemática e idiomas. Meu pai dizia que era o suficiente para nosso aprendizado. O resto aprenderíamos em viagens. Mas ele só permitiria que viajássemos após os dezesseis anos, então, até completarmos essa idade vivíamos num mundinho totalmente isolado... (pausa tensa)
- Quer parar?
- Não... Só preciso achar as palavras certas para te explicar sem parecer muito vulgar... A Flavia assistia a estas cenas entre minha mãe e eu. Nós não sabíamos, mas durante muitos anos ela assistiu a tudo. Uma noite, sabe-se lá porque ela surtou. Invadiu o quarto e começou a gritar. Ela falava histérica que minha mãe era uma prostituta que estava seduzindo o próprio filho e que iria contar para todo mundo. Minha mãe, desesperada, pediu que ela falasse mais baixo pois os empregados poderiam ouvir. Mas ela continuou gritando muito. Na verdade, somente a Amelia dormia na mansão. Todos os outros empregados dormiam na casa destinada a eles e não poderiam ouvir. E, como a Amelia, por sorte, tinha tirado uma semana de férias para visitar seus parentes em outra cidade, ninguém além de nós ficou sabendo do escândalo.. (pausa, Ricardo suspirou)
- Detesto agir assim mas só posso dizer, hum hum, continue...
- As duas discutiram por muito tempo e a Flavia terminou exigindo que nossa mãe se afastasse de nós, especialmente de mim. Deveria pedir o divorcio, abrir mão de pensão, jóias, tudo, ou seja, deveria sair de casa sem direito a nada nem mesmo a nos procurar novamente. Em troca, a Flavia jamais diria nada a ninguém. A principio, nossa mãe relutou mas acabou concordando e se foi. Ninguém até hoje entendeu o que aconteceu para que ela tomasse essa repentina e tresloucada decisão.
- hum hum... (pausa) - Desculpe, mas não consigo encontrar nada que eu possa te dizer agora...
- Entendo...(pausa) - Todos pensam que minha mãe saiu de casa por causa de um amante... Meu pai acabou se casando novamente e acho que superou tudo isso. Mas a Flavia... (pausa) - A partir da partida de nossa mãe, a Flavia começou a tomar o lugar dela. Ela passou a dormir na cama de nossa mãe sempre que nosso pai viajava e, nessas ocasiões, me chamava para dormir com ela. E pedia que eu fizesse com ela tudo o que fazia com minha mãe. No inicio eu não queria mas ela ameaçava contar para todos e eu que nem sabia bem onde estava meu erro, ficava com medo e cedia... (pausa) - A gente foi crescendo, as caricias foram ficando mais intimas até que perdemos a virgindade juntos... A partir daí, temos vivido esta relação incestuosa... Agora tem algo a dizer, Ana?
- Desculpe-me, mas não posso dizer nada agora. Preciso analisar com calma tudo o que vocês me disseram. Preciso de tempo para refletir e chegar a uma conclusão... Eu... Preciso ir agora.
- Por favor, não vá. Eu já disse que te pago a sessão, pago o dobro, quanto quiser mas, por favor, não me deixe agora... Estou perdido, não sei o que quero, não sei se quero continuar me relacionando com minha irmã, mas sempre que eu viajo, sempre que encontro uma mulher que me interessa, ela faz essas cenas, eu fico me sentindo culpado, acabo cedendo. E nem tenho com quem desabafar.
- Importa-se que eu tome um banho? Acho que agora sou eu que estou suada demais e preciso esfriar minha cabeça...
- Fique à vontade, paguei pela noite toda (rindo) podemos até dormir aqui... Se quiser, claro!
- Não quero tanto, apenas um banho para me recompor... Já volto...
Cena 8:
Sentindo a água percorrendo seu corpo, Ana parecia ter encontrado a paz. Depois de ouvir a versão de Flavia e a de Ricardo, por sinal, contraditórias, o som da água era a musica perfeita para embalar Ana. Deixou que a água molhasse seus longos cabelos e sentiu um grande alivio.
Tentava entender porque cada um dos irmãos contava uma estória. Flavia dizia que a mãe os tinha abandonado, fugindo com um amante e Ricardo dizia que ela fora expulsa pela própria Flavia. Esta dizia que o irmão a assediara até que cedeu, ele dizia que o seduzido era ele... Somente um detalhe era comum aos dois, Flavia não conseguia mesmo ficar longe de Ricardo e, certamente, faria cenas e tentaria suicídio a cada viagem ou afastamento dele...
Ana decidiu não pensar mais nisso e sentir cada segundo daquele revigorante banho. Depois disso, iria vestir-se e voltar para sua casa. Só pensava em sair dali e ir para seu seguro habitat. Neste momento, Ricardo entrou no banheiro, assustando Ana que quase gritou:
- Como entrou aqui? Eu tranquei a porta.
- Isso não significa nada (disse rindo) - Esses chalés são projetados para serem abertos por dentro e por fora...
- Mas por que um projeto tão idiota desses?
- Não sei, pergunte a quem projetou... Eu entrei porque está muito calor... Quero tomar banho também.
- Ta. Eu já estava saindo mesmo...
- Não... (disse aproximando-se de Ana) eu pensei em tomarmos banho juntos...
-Ricardo, por favor, não.
- Por que não?
- Eu nem deveria ter vindo... Eu preciso ir... (Ricardo calou a boca de Ana com um ardente beijo e, logo, outros beijos seguiram e Ana já nem pensava mais em ir embora...) - Ricardo... Eu.. Não posso
-Não pode ou não quer? (respondeu Ricardo, acariciando Ana e beijando-a repetidas vezes)
- Não... Posso.. Não quero... Ai, eu nem sei mais nada... (Disse Ana totalmente seduzida por Ricardo. Enquanto o som da água jorrando pela ducha misturava-se ao som dos beijos e gemidos dos dois, a noite chegava fria... Aquele outono estava mesmo bem estranho, dias muito quentes e noites frias demais. Ana não saberia dizer por quanto tempo Ricardo a deliciou com caricias e beijos ardentes. Não parecia um inocente menino seduzido pela irmã. Parecia um homem muito experiente e capaz de levar uma mulher à loucura. Trocaram caricias por muito tempo e, quando Ricardo a possuiu, Ana já não podia pensa em nada,... Sentia um grande êxtase e quase desmaiou em meio a um orgasmo que não se lembrava de ter experimentado antes . Pensou que Ricardo iria parar e dormir feliz mas ele a pegou no colo, a levou para a cama e, novamente, fez amor com ela... E mais uma vez... Até que Ana, exausta, implorou que ele parasse. Ricardo sorriu, perguntando:
- Está mesmo satisfeita por esta noite, doutora?
- Estou satisfeita pela próxima semana e não me chame de doutora agora, por favor...
- Por que, doutora?
- O termo doutora me lembra que não posso me envolver com um paciente...
- Não sou seu paciente ou sou?
- Por favor, não me pergunte nada, apenas... Me deixe dormir, por favor...sim?
- Ok, vou te deixar dormir... Mas vem cá (disse abraçando-a) Quero que durma nos meus braços, pra se lembrar sempre desta noite...
Ana não questionou, aceitou aquele abraço e, logo, adormeceu...
Cena 9:
Era a quinta vez que Ana tentava falar com o Dr. Guimarães. Ele nunca estava na mansão e seu celular só caia em caixa postal. Tentaria mais esta vez e, se não conseguisse, iria procurá-lo pessoalmente e anunciar que não atenderia mais o caso de Flavia. Pretendia passar para um colega, já havia combinado com ele.
O celular, finalmente, foi atendido.
- Alo? Guimarães falando.
- Dr Guimarães... É Dra. Ana.
- Como vai, doutora?
- Bem e o senhor?
- Estou bem. Amelia me deu seus recados mas tenho viajado muito. Eu ia ligar mas a senhora ligou... Enfim... O que tem a me dizer?
- Eu... Desculpe-me Dr. Mas não poderei continuar atendendo a Flavia. Surgiu uma irrecusável proposta de trabalho em outra cidade e...
- Não precisa dizer mais nada, doutora. É sempre assim. Não sei o que minha filha tem que ninguém agüenta tratá-la até o final... Fazem uns meses de terapia e acabam abandonando-a sem sequer me dar uma previsão de diagnostico, mas confesso que achei que a senhora fosse diferente. Pensei que solucionaria o caso.
- É que, realmente, preciso do trabalho que me foi proposto e...
- Sou um homem vivido, doutora. Sei que não há nenhuma proposta, minha filha é que tem alguma doença que assusta até os terapeutas... Mas não vou ficar implorando sua atenção nem serei piegas ao ponto de perguntar-lhe quanto quer para não abandonar o caso. Se não quer mais atender a Flavia, agradeço pelo tempo em que esteve conosco e pelo que tentou fazer por ela.
- Que bom que entendeu, Dr. e...
- A senhora vai me desculpar mas estou muito ocupado. Muito grato por seu telefonema e por me posicionar quanto a sua decisão. Muito sucesso em seu novo trabalho, doutora. Adeus.
Ele desligou sem sequer esperar a resposta de Ana, mas foi melhor assim. Ela não tinha mesmo a mínima idéia do que dizer. Não tinha mais ido à mansão depois daquela noite com Ricardo. Já havia se passado dez dias e ela já não tinha mais sequer vontade de tocar neste assunto.
A imagem de Ricardo ainda povoava seus pensamentos e a lembrança daquela quente noite de amor ainda tirava seu sono mas ela iria esquecer. Não havia mesmo nenhuma proposta de trabalho em outra cidade mas ela encontraria forças para superar tudo isso mesmo continuando no mesmo local.
Lembrou-se de ligar para Paulo e desculpar-se. A principio ele pareceu bem rude mas acabou cedendo e dando uma nova chance a Ana que prometeu nunca mais esquecer-se de nenhum jantar ou aniversário ou ópera. Ana também passou a dedicar-se mais ao relacionamento, parou de atender pacientes e seguiu somente como pesquisadora. Isso possibilitou uma maior proximidade com Paulo e um fortalecimento na relação.
Tanto que, dois meses depois, Paulo a pediu em casamento e Ana aceitou imediatamente. Era uma fuga. Ana sabia que jamais esqueceria aquele homem enigmático e a noite de amor que vivera com ele mas casar-se com Paulo a faria mais conformada com a realidade e , certamente, com o tempo, guardaria apenas uma boa lembrança deste período em sua vida...
Veio a noite em que festejariam o noivado e já anunciariam a data do casamento. A casa de Ana encheu-se de flores e presentes dos amigos que chegaram inundando de alegria o local e o coração de Ana. Aliás, Ana , vestida de vermelho e com um sorriso radiante era o centro das atenções e nada parecia poder estragar aquele momento sublime na vida dos noivos. Até que um amigo intelectual chegou. Sorridente e trazendo dois dos principais jornais da cidade, além de alguns livros. Logo foi recepcionado por Paulo:
- Ora, se não é o nosso amigo intelectual. Não importa aonde vá tem que levar os jornais e livros não é?
- Claro, tenho que me manter bem informado...
- Deixe-me ver o que tem de novidades... (disse Paulo “roubando” os jornais do amigo e já o “empurrando” para dentro da casa. Paulo folheou rapidamente o primeiro jornal e, ao pegar o segundo jornal, deparou-se com a grande manchete. Leu, primeiramente, em voz baixa e, depois falou) - Querida... Olha que noticia estranha, acho que tem a ver com aquela moça que você atendeu há tempos...
- Quem, meu amor? Leia pra nós.
- Ouçam. (Paulo começou a ler) - Noite trágica na mansão dos Guimarães... (Ana parou de dançar e prestou atenção a cada palavra que Paulo lia) Esta madrugada, sem motivo aparente, a jovem Flavia disparou cinco tiros contra seu irmão Ricardo, acertando três, sendo dois fatais na região do coração e, em seguida, matou-se com um tiro na boca que atingiu...
Ana já não ouvia nada, pensava ao mesmo tempo na sua incompetência como Terapeuta e no seu envolvimento com Ricardo... Arrepios e náusea ao mesmo tempo... sentia o mundo girar, a cabeça doía de forma insuportável e ela tinha a sensação de que iria explodir. Paulo continuava lendo mas Ana não ouvia, tudo parecia escuro, uma grande escuridão que a cegava... caminhou alguns passos meio cambaleante e simplesmente caiu, sentindo tudo girar a sua volta .
A festa estava encerrada, assim como a vida de Ana. Seria difícil explicar a Paulo sua reação, isso se ela voltasse à consciência, poderia ter tido um aneurisma ou talvez uma fuga inconsciente da realidade. Talvez ela morresse a caminho do hospital... Afinal, como se pode saber os segredos do pensamento, as reações da mente humana, a mistura de sentimentos que povoam a mente, os desejos e fantasias de cada um de nós e as conseqüências disso?
FIM
Lou de Olivier publicado em 03/02/05
Conto 2:
Ela ouvia boleros...
Uma voz suave descrevia estórias de amor dizia que aguardaria a volta da ingrata que se foi Num espanhol com sotaque mexicano...Ela ouvia os boleros
Um gosto amargo na boca. E aquele número cravado em sua mente. Discou novamente... Ninguém atendeu, a linha caiu. A voz nos boleros dizia de suas dolores. E ela recordava seus amores. E suas próprias dores.
Ela ouvia boleros. Uma lágrima correu solta. E logo uma multidão de lágrimas inundou o rosto dela. Ligou novamente, ninguém atendeu. Não havia ninguém e, se havia, ninguém se comoveu.
O amargo na boca aumentava... Ela chorava... Por um passado que nem aconteceu. Perdeu-se numa nuvem de ilusões. Bebeu mais alguns goles tão amargos. Sentiu tudo girando. E os boleros amaldiçoando. Amores ilusórios que jamais a conquistaram.
Novamente ligou, mais uma vez e outra. Ninguém, nunca ninguém a atendeu. Pensou em dançar um pouco. Mas já não tinha forças. O veneno já corria solto em seu sangue. Em sua alma, em seu quase morrer.
Não haveria despedida. Era uma mulher maldita. Condenada a solidão. Ela não ouviu o último bolero. Que dizia ser imposible olvidar. Nem bebeu o restante do líquido. Que serviria como prova de seu suicídio. Seria sua vingança, ele jamais se perdoaria. E o bolero pedia, por compasión... Enquanto ela soltava seu último suspiro...
Então, o telefone, finalmente, tocou. Mas ela já estava morta, não poderia atender.E o bolero dizia... Los besos que negaste, ya no los puedes dar...
FIM
© Lou de Olivier 17/07/05
Conto 3 -
Duas Anas, um caminho... By Lou de Olivier
Ana olhou-se no espelho, era mesmo muito bonita, tinha uma voz doce, feminina, era culta, inteligente, conhecia grande parte do mundo pois viajava bastante, enfim, tinha tudo para ser feliz mas não era .. Faltava-lhe algo ou alguém ou algum lugar que parecia nunca vir ou não existir e ela seguia infeliz e incompleta.
Já estava atrasada para mais um lançamento de seu novo romance, mesmo assim, sentou-se por um instante e pôs-se a pensar: Desde muito pequena, Ana já mostrava uma forte personalidade, brigava muito por seus direitos e tinha uma espécie de desvio de personalidade que a faria, pela vida toda, uma grande perseguidora de utopias, ao menos, no que se refere ao amor...
Mas a trajetória de Ana em busca de realizações utópicas não começou por amor, foi por um saquinho de amendoins... A nossa protagonista deveria ter uns quatro anos quando, num passeio com os pais, ganhou um suculento saquinho de amendoins. Como era muito mimada, fazia charme até para comer, então comia um amendoim, derrubava um ou dois, comia mais um e assim passou-se o tempo até que ela avistou um senhor que acabara de comprar um saquinho de amendoins igualzinho ao de Ana. Mas ele não demorava a comer, ele jogava um punhado para o alto e aparava com a boca, mastigando com gosto.
Ana ficou encantada com aquele gesto e logo pediu:
- Papai, quero aquele amendoim do moço. Pede para ele trocar com o meu?
O pai, que achava graça em tudo o que Ana fazia, acompanhou a filha até onde estava o rapaz e disse a ela que pedisse a ele para fazer a troca e Ana, inocentemente disse:
- Moço, vamos trocar? O meu saquinho tem muito mais e você vai levar vantagem na troca.
- Não quero levar vantagem, garotinha, só quero comer em paz...
- Mas eu quero o seu amendoim... (falou Ana, já choramingando, quando seu pai interveio.)
- Olha, moço, minha filha só tem 4 anos, cismou que o seu amendoim é melhor do que o dela, por favor, eu compro outro saquinho e o senhor dá esse resto para ela, assim, todos ficam felizes, o que acha?
-Não...
- Quanto quer por esse mísero resto de amendoim, rapaz?
- Não quero nada, senhor. Sua filha é criança, mas é muito folgada, tem que aprender que não pode ter todas as coisas que deseja...
Foi a última coisa que o rapaz falou antes de levar um enorme murro no rosto e cair deitado. Muito rápido, o pai de Ana pegou o saquinho de amendoins do rapaz e o entregou a Ana
- Pronto, minha filha, agora é seu...
- Mas eu não acredito – retrucou a mãe de Ana – você roubou esse amendoim, o rapaz está sangrando, que exemplo você está dando para nossa filha...
- Eu tentei negociar e ele não concordou – disse pegando Ana no colo e saindo do parque – e olha, minha filhinha, vou te dizer uma coisa: nunca admita que te digam "não" por que você pode sim, ter todas as coisas que quiser, enquanto eu tiver vida, vou buscar para você, vou negociar, roubar, matar, o que for preciso, mas vou te dar tudo o que quiser...
A partir deste dia, Ana passou a exigir tudo o que achava que podia ter e, claro, o pai e, posteriormente a mãe, que também entrou no jogo, faziam qualquer coisa para satisfazer-lhe as vontades...
Mas, claro que isso não durou para sempre. Quando foi para a escola, Ana começou a ver que não podia ter todas as coisas que queria, tinha regras a seguir, divisões a fazer com os coleguinhas e, aos poucos, foi acostumando-se a abrir mão de algumas coisas. Na adolescência já não tinha mais nada daquela menina mimada, a vida encarregava-se de mostrar, diariamente, a Ana limites e renúncias que ela ia assimilando e tornando-se mais adulta. Mas algo ficou no seu lado criança que, sabe-se lá por que, ela transferiu para o amor...
Ana tornou-se uma bela adolescente, muito assediada por todos os rapazes da turma, mas sempre havia um que não gostava ou, apenas por charme, a ignorava. Pois era esse mesmo que Ana passava a querer, aliás, se havia uma regra para conquistar Ana, era essa: ignorá-la. Bastava isso, para que ela caísse de amores pelo "bad boy"...
Tinha uns dezesseis anos quando apaixonou-se perdidamente por um rapaz muito bonito, também muito assediado que fazia questão de espalhar que nada queria com ela. Que paixão Ana experimentou a partir dessa "declaração de desamor"... Vivia suspirando pelos cantos, sonhando com o rapaz, até que, um dia, por uma bobagem qualquer, o rapaz a desprezou muito, em público, e Ana, com toda a insegurança dos adolescentes, escreveu-lhe um bilhete, dizendo que sentia muito tê-lo incomodado, que ela iria embora e nunca mais se veriam. Ao ler o bilhete, o rapaz desandou a chorar como criança e virou até motivo de piada da turma. Foi ai que Ana viu que o rapaz, apesar de nojentinho, também a amava.
Bem, se esta fosse uma estória comum, os dois se beijariam e viveriam felizes para sempre, mas essa é a estória de Ana, a própria protagonista de novelas mexicanas, por isso, após a cena do bilhete, formou-se o maior complô. Os pretendentes de Ana e as pretendentes do rapaz até uniram-se para fofocar, intrigar, polemizar e tudo o que se pode imaginar para atrapalhar o romance que nem sequer iniciou... O rapaz sumiu no mundo, deixando Ana com o coração despedaçado...
O tempo foi passando, Ana seguiu sendo assediada por uma legião de admiradores e pretendentes, mas sempre acabava interessando-se por quem não a queria. E o ritual incluía uma série de tentativas frustradas de conquista e, quando a vítima, ou melhor, o pretendente cedia aos encantos de Ana, esta se esquivava, escrevia um amontoado de bobagens, agia de forma dúbia até que o infeliz se desinteressava e ela o culpava por "abandoná-la". Assim, vivia desiludindo-se e colocando a culpa no destino, que parecia nunca mudar...
Apesar de ter-se tornado uma Escritora famosa e bem conceituada, Ana continuava muito carente, procurando um amor que parecia existir somente em sua mente sonhadora. Se, por um lado, todo o seu romantismo a ajudava a escrever lindos romances que logo vendiam muito, por outro lado, demonstrava sua grande insatisfação na vida pessoal.
Um dia foi com amigos a uma boate e lá havia uma bela cantora, chamada Ana Carla que, ao avistar Ana entrando na boate logo a reconheceu. Falou ao microfone que era sua fã, já havia lido todos os seus livros e sentia-se honrada em tê-la na boate. Ana sorriu, acenou agradecendo e sentiu-se lisonjeada quando Ana Carla ofereceu a ela um bloco de canções.
Ao terminar de se apresentar, Ana Carla foi até a mesa de Ana e, a partir daí surgiu uma grande amizade entre as duas. Ana pensava somente em amizade, porém Ana Carla via grandes possibilidades de algo mais. Isso esbarrava em valores e, acima de tudo, em opções de Ana que não via mesmo nenhuma graça na relação entre duas mulheres. Assim, seguiram por alguns meses, Ana Carla assediando e Ana esquivando-se.
Ana era tão carente e sem rumo que apaixonava-se aleatoriamente, se inventava de fazer algum curso, logo achava que o professor era o homem ideal para ela, não podia ir a uma consulta médica que já imaginava que o médico era o homem de sua vida, uma simples ida ao supermercado poderia virar uma grande confusão amorosa pois Ana apaixonava-se perdidamente por qualquer um que a tratasse com gentileza, mas não parecesse disponível, afinal, Ana ainda perseguia o modelo do bad boy.
Ana já tinha uma série de poesias que reservava aos "amores de sua vida", tinha a poesia "olhos negros" que dedicava a todos os que tivessem olhos negros, a dos olhos azuis, a dos cabelos castanhos e por aí vai.. Mas claro que tomava o cuidado de dizer aquela frase; "Fiz especialmente para você"... Na verdade, Ana queria somente brincar de amores mas não via (ou fingia não ver) isso.
Certa vez, consultando um médico, imaginou um amor à primeira vista. Entrou como paciente e saiu da consulta apaixonada sem nem saber porque, afinal o médico estava com uma crise forte de sinusite o que o deixava meio fanhoso e com um hálito bem ruim e não falou mais do que vinte minutos com ela, porém foi tempo suficiente para Ana se comover com o fato do coitado trabalhar doente, imaginar que o pobre infeliz não tinha ninguém para cuidar dele, pensar em levá-lo para casa, dar-lhe banho, chá...
No inicio, o médico até pareceu meio interessado em Ana, mas ela agia de forma tão amalucada que, logo, ele se esfriou mas ela seguiu envolvendo-se. Não continuou a se consultar com ele que parecia sempre ocupado para atende-la, mas ela ainda pensava em encontrá-lo. Foi assim que foi procurá-lo num congresso, no qual ele seria palestrante. Já chegou lá roubando a cena. Atravessou o saguão do hotel com todos a olhando, uma moça correu atrás de Ana e cochichou "seu zíper está aberto"... Ana agradeceu, fechou o zíper da saia e tranqüilamente dirigiu-se ao balcão de informações enquanto todos a olhavam espantados.
- Que povo mais bobo, saí correndo e esqueci de fechar o zíper, não precisam babar por isso... A recepcionista riu ao ouvir o comentário antes de indicar-lhe a escada que deveria subir.
Justamente o médico que Ana procurava estava atrasado e Ana ficou conversando com a organizadora do evento. A moça identificou-se como Ana e nossa protagonista teve que segurar-se para não assumir que eram xarás. A moça insistiu muito para saber o nome de Ana, ela então, identificou-se como Soraya. A moça fez muitas perguntas, mas Ana despistou tanto que ficou o dito pelo não dito..
Bem, o médico não foi sequer à palestra que ele mesmo faria. Então, Ana começou a achar que não era só com ela, ele deveria estar fugindo de tudo e todos. E por algum sério motivo que ele não poderia revelar. Foi então que Ana contratou uma detetive particular para localizar o endereço do médico e foi procurá-lo em sua residência, porém ele se recusou a atende-la.
Por meses, Ana enviou-lhe cartas, poesias, convites, e-mails...Ele nunca respondia, nem sequer acusava recebimento, por isso, foi uma grande surpresa quando, em um lançamento de livro ela o viu numa mesa próxima a entrada do setor de lançamento. A principio, Ana sentiu-se feliz e pensou em ir falar com ele porém, por estar sempre atrasada, Ana foi para o evento sem calcinha, simplesmente esqueceu de colocá-la. Toda de vermelho e sem calcinha... Ainda bem que dessa vez, ela ao menos, fechou o zíper...
Achou que ficaria vulgar, estando ela com uma roupa vermelha, meio transparente e sem calcinha, ir até uma mesa cheia de homens. Pediu ao garçom que fosse até a mesa chamar os rapazes para entrarem no evento. O garçom disse que aqueles rapazes só estavam ali para beber, não dariam valor ao evento. Ana suspirou chateada e, ao olhar para o médico, notou seu olhar triste, talvez estivesse pensando que ela o estava rejeitando então, Ana resolveu que ela mesma iria até a mesa. Pensou que estava sem calcinha, os rapazes perceberiam, mas qual o problema? Iria arriscar.
Quando se dirigia até a mesa, a produtora simplesmente a agarrou e a arrastou para o evento. - Por que você está tão isolada, Ana??? O público quer te ver, mulher.
-Eu ia, quer dizer, eu preciso falar com uma pessoa.
-Olha só quantas pessoas te esperando, venha falar com todas elas...
- Mas é uma pessoa que...
- Relaxa, poderosa! Olha só gente, quem eu fisguei...
Muitas pessoas cercaram Ana neste momento e ela sentia um peso nas costas, como se carregasse uma tonelada. Parecia não conseguir levantar-se daquela cadeira onde a produtora a empurrou a sentar. E tantas pessoas cercando-a, pareciam ser uma barreira intransponível. Quando, finalmente, desvencilhou-se do público e conseguiu chegar na mesa em que o médico estava, encontrou outras pessoas. Ele já havia ido embora.
Pronto, estava armada a cena perfeita para a novela de Ana. Agora ela poderia correr muito atrás deste médico que, certamente, não deveria querer vê-la mais...Ana pediu a um amigo que ligasse para a clínica do médico e perguntasse por ele. A resposta que veio foi de que o médico estava no exterior. Isso arrasou Ana. Chorou muito e já nem sabia por que chorava tanto por causa desse médico. Nesta época ainda havia alguns pretendentes bem afoitos que tudo faziam para conquistá-la e, como ela nunca se decidisse e já que confusão pouca é bobagem, o "amigo" saiu espalhando que ela não queria os pretendentes por que estava "correndo atrás de um médico". Então, é claro que as coisas se complicaram muito mais. Agora os pretendentes acotovelavam-se disputando um pouco da atenção de Ana.
Mas Ana estava desencantada e decidida a não relacionar-se mais com ninguém. Era muito disputada, recebia diariamente cartas, mensagens, lindas poesias e pedidos de namoro, mas não era nada disso que ela queria.. No fundo, Ana ainda era uma garotinha de quatro anos querendo um saquinho de amendoim que não lhe pertencia... Foi a boate onde sua amiga Ana Carla cantava, queria conversar, desabafar tudo o que sentia. Ana Carla a ouviu com o carinho e a cumplicidade dos apaixonados, depois disse com sua voz de contralto:
- Até quando você vai querer brincar de casinha ou de médico, minha querida? Até quando vai deixar este tipo de homem te magoar? Olha em volta, tem muita gente linda querendo te amar de verdade, inclusive eu. Basta você dizer sim e eu te farei a mulher mais feliz da face da terra, eu te juro.
Ana mordeu os lábios tentando conter uma lágrima, disse apenas.
- Você é como uma irmã, minha maninha e xará, só isso...
Agora era Ana Carla quem tentava conter as lágrimas e disse num misto de raiva e dor.
- Vou batalhar muito minha carreira, "xará", vou fazer qualquer coisa mas vou ficar famosa e, um dia, você vai me ver num programa de grande audiência e, neste dia, vou dedicar uma música a você. Quando eu disser, "esta vai para você minha mana e xará", pode ter certeza de que te matei no meu coração...
Ana Carla, já chorando, levantou-se e caminhou para o camarim. Ana, também chorando levantou-se em seguida e foi para seu carro. Não queria magoar a amiga que tanto amava mas também não conseguia imaginar-se vivendo um romance com ela...
Ana ainda estava disposta a conquistar o médico, talvez somente pela sensação de persegui-lo, sabia que seria mais difícil pois agora ele viajava constantemente ao exterior e não dava mais nenhum sinal de vida, então Ana desistiu de contatá-lo usando seu nome verdadeiro, passou a criar personagens e escrever-lhe e-mails com estes nomes.
Akemi Yamamoto era uma estudante japonesa a quem ele disse que atendia na Ásia em alguns períodos do ano. Anita Alice era uma recém chegada de Santos que morava numa pensão e até chegou a agendar uma consulta que foi desmarcada por que, depois de agendar, as secretárias, lembraram que ele não atendia "desconhecidos" no último horário... Que pena, por que Ana pretendia comparecer ao prédio e encontrá-lo quando saísse logo após o "no show" que a Anita lhe daria. A Soraya, outra personagem, até o procurou pessoalmente na clínica, mas não passaram a ligação, quando ela tentava avisar que estava lá perto, tentando falar com ele. Mas ele só respondia uma ou duas vezes, depois parava de responder aos e-mails de Ana com outros nomes. Até que surgiu Aline, uma aeromoça que, apesar de alguns erros de Português pareceu cativá-lo. Ele sempre respondia aos e-mails dela. Passavam-se dias até meses e ela achava que ele não lembraria, mas ele lembrava e respondia a todas as mensagens.
Ana encheu-se de coragem e ligou, disse seu nome e pediu para falar com o médico. Para seu espanto, passaram a ligação. A atendente deveria ser nova por lá, não deveria estar sabendo da regra de nunca passar telefonemas dela para o médico. Ele atendeu...
- Aqui é a Ana, eu preciso muito falar contigo e desfazer tantos mal entendidos que ficaram e...
- Eu recebi todas as suas cartas, seus e-mails, estou sabendo que quer falar comigo, mas não quero falar com você. Você está atrapalhando a minha vida. E não quero mais ouvir sua voz.
- Você não ouve minha voz há muitos meses, será que não enxerga isso? (pausa) Olha se você ficou chateado porque não fui na sua mesa no lançamento do meu livro, é que você estava com vários rapazes e eu estava sem calcinha e...
- Eu não quero ouvir isso! (Ana suspirou desanimada tentando entender o que, afinal, aquele homem queria ouvir.)
Continuaram um diálogo sem nenhum sentido até que Ana desligou. Já não chorava mais por tantos desencontros e tantos mal entendidos. Na verdade, nem sentia nada por este homem, apenas queria algo para iludir-se e nada melhor do que um homem indisponível para iludir-se...
Nesta época, Ana precisou procurar um ex. Sempre que precisava, ele a ajudava e acabavam voltando ao menos para um "happy hour sensual" Mas dessa vez foi diferente. Ana sentia-se feia, rejeitada, sem graça e o ex estava namorando. Foram muitos beijos deliciosos, mas Ana parou por ai. Escreveu uma carta, depois um e-mail desculpando-se e dizendo que não o procuraria mais. Precisava desligar-se do passado para poder viver o presente. Desejou-lhe muitas felicidades na nova relação e seguiu sem olhar para trás.
Chegando em casa, ao abrir os e-mails, espantou-se ao ver a resposta do médico temperamental. Claro que não era para ela, ele respondia para a "Aline", indicando um colega seu no mesmo prédio, pois ele deixaria de clinicar no país. Aline ainda respondeu-lhe agradecendo o contato, dizendo que tinha encontrado um outro médico. E ainda perguntando-lhe o que tinha ocorrido para ele se mudar tão de repente...
Ana resolveu aposentar todas as suas personagens e não contatar mais o médico. Tentava entender suas próprias atitudes mas não conseguia. Se ela soubesse que um simples saquinho de amendoins lhe traria tanto sofrimento... Começou a questionar que deveria procurar um terapeuta e resolver seu caso com ela mesma, ao invés de continuar correndo atrás de quem não queria sequer vê-la...
Pronto, estava tomada a decisão que mudaria sua vida. Iria fazer uma boa terapia, depois viajaria um tempo e só depois disso é que pensaria em envolver-se amorosamente. Estava preparando-se para sair quando viu, na TV, sua grande amiga Ana Carla. Não acreditou no que via, Ana Carla tinha mesmo conseguido, estava sendo entrevistada no programa de maior audiência da TV. Ana sentou-se para ouvir a amiga que já estava encerrando as respostas e preparando-se para cantar uma música inédita. Ana Carla olhou para a câmera, sorriu e disse:
- Agora vou cantar uma música inédita, chamada: Hoje te matei no meu coração e "esta vai para você minha mana e xará", onde você estiver...
Ana Carla começou a cantar com a voz um pouco embargada enquanto Ana levantava-se e caminhava lentamente até a praia... Não iria mais ao lançamento de seu próprio livro, não tinha condições para isso. Não bastava ter passado a vida toda perseguindo amores de homens impossíveis, agora perdia uma grande amiga, tudo em nome de um amor de posses que ela nem tinha certeza de que valia mesmo a pena...
Ana mergulhou nas águas geladas daquele mar cinzento, desejando que pudesse exorcizar sua estória. O frio intenso e o céu nublado faziam daquela praia o cenário ideal para sua solidão...Mergulhando muito fundo, Ana tentava entender por que ela parecia ter um talento natural para transformar uma simples consulta médica num roteiro de intrigas, espionagem, romances, um autêntico (James Bond) 007 tupiniquim. O frio congelava seu corpo e teve que sair da água. Enrolou-se na toalha e caminhou lentamente, enquanto cada cena passava por sua mente como se estivesse acontecendo naquele momento...
Foi para casa, sentou-se em frente ao computador e começou a escrever essa estória que agora você termina de ler...
FIM
Simbiose fatal de Lou de Olivier - Escrito em 28/10/2002 (para antologia alemã)
Atenção: Este texto foi escrito em apenas três horas e é totalmente fictício, não tendo nenhuma base real. Trata-se de pura ficção no melhor estilo suspense. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real terá sido mera coincidência.
Entre relâmpagos e trovões, Soraya tentava ler um livro, mas a tempestade cada vez mais violenta tirava sua concentração. Um estrondoso raio fez com que a iluminação fosse cortada. Olhou desoladamente em volta, sem saber se sentia medo ou se tentava, em meio à tanta escuridão, encontrar uma lanterna...
Decidiu não fazer nem uma nem outra coisa, senão dormir. Já era tarde e precisava mesmo descansar para, no dia seguinte, sair em busca de um emprego...
Seria o primeiro emprego de sua vida. Passara a vida toda sendo "filhinha de papai", sem saber sequer para que lado ficava o que chamavam de emprego. Mas, um acidente fatal mudou sua vida por completo. Ficara sozinha, seus pais e irmãos morreram no acidente. E ela descobriu, meio tarde, que os negócios da família não iam tão bem como parecia... Teve que saldar inúmeras dívidas e tudo o que lhe restou foi a mansão, onde agora residia sozinha, já que, obviamente, teve que dispensar todos os empregados. As contas já se acumulavam e ela, sem nenhuma fonte de renda, já sentia que precisava agir rápido para não chegar a passar fome, o que, aliás, faltava pouco..
Havia colocado um anúncio no jornal alugando quartos, mas depois de uma semana, ninguém respondera ao anúncio. Então, só restava sair em busca de trabalho. Nem sabia direito o que fazer, por onde começar. Não achava importante estudar, ao menos, não até aquele momento. Tinha feito muitos cursos, mas todos inúteis do ponto de vista comercial. Estudara bale clássico, jazz, piano... Também fizera, há tempos, um curso de etiqueta social... Mas a escola convencional... esta abandonara ainda no ensino fundamental... Bem, estava destreinada como bailarina, mas ainda poderia tentar tocar piano em alguma boate ou, quem sabe, lecionar etiqueta... Enfim, tentaria alguma coisa no dia seguinte...
Estava quase dormindo quando um barulhento trovão a fez sobressaltar-se e, em seguida, ouviu batidas insistentes na porta principal. Ficou alguns segundos parada, sem sequer respirar, na tentativa de ouvir melhor os sons. Alguém realmente batia à porta, mas quem seria aquela hora da madrugada e em meio a esta tempestade? Procurou pela lanterna e, até encontra-la, ouviu mais algumas insistentes batidas. Desceu as escadas tentando não tropeçar, já que as pilhas da lanterna estavam fracas e a lanterna mal podia iluminar os degraus...
Pela vidro da porta podia ver o vulto de alguém. Deveria ser um homem, pois era alto, parecia usar um casaco pesado, o que impedia de ver seu físico, mas sem dúvida, devia ser forte. Sentiu medo, gritou:
- Quem é?
- Olá! Eu vim pelo anúncio. Preciso de um quarto...
- A esta hora?
- Desculpe-me. Fui transferido de hospital, sou médico, sabe? (pausa). Eu deveria ficar num hotel até encontrar uma casa para alugar, mas... eu me perdi, não conheço bem a cidade... Por favor, abra a porta.. Vou derreter embaixo desta chuva!
- Eu...não sei... Como soube do anúncio?
- Parei num posto para abastecer o carro e o frentista me falou que havia uma moça alugando quartos nesta mansão. Disse que tinha visto num anúncio. Na verdade, eu nem vi este anúncio. Foi o frentista quem me falou... Acho que se chama Jorge...
- É. Realmente há um frentista chamado Jorge no posto da entrada da cidade.
- Acho que foi este (pausa). Olha, preciso mesmo tirar essa roupa molhada e me aquecer. Mas, se estiver com muito medo de me receber, posso entender. Eu... Vou procurar outro lugar. Desculpe incomoda-la...
- Espere! - gritou já correndo para abrir a porta - Estou mesmo precisando alugar os quartos. Não importa se meus inquilinos serão excêntricos e se gostarão de circular pela casa de madrugada. Eu nunca fui muito certinha mesmo...
- Obrigado por abrir esta porta. Estava congelando lá fora. (pausa) Se te incomodar, posso ficar só esta noite e procurar outro lugar pela manhã...
- Não, já disse que preciso alugar os quartos. Por falar nisso, pode adiantar quinze dias? É como sinal...
- Claro! Quanto é? Soraya suspirou. Era mesmo desorganizada. Nem havia pensado em quanto cobraria pelos quartos. Pensou rápido, disse: - O mês custa cem slurpis, portanto, quinze dias são 50 slurpis...
- Ok. Aqui está...Bem, posso subir ao quarto e me trocar, por favor?
- Claro. Pode ficar com a suite maior, é brinde por ser meu primeiro hóspede.
- Quer dizer que não há mais ninguém aqui além de nós dois? Um frio macabro percorreu o corpo de Soraya, enquanto ela pensava no que a levava a ser tão imbecil. Porque tinha sempre que ser tão franca. Não tinha a mínima idéia de quem era aquele desconhecido. Não poderia ter dito coisa mais idiota do que disse há pouco. Pensou numa forma de consertar o que dissera, mas como?
- Tenho já duas reservas, as pessoas devem estar atrasadas por causa da chuva, mas logo estarão aqui, além disso tenho um cachorro imenso que dorme no meu quarto. Ele avança em qualquer um que se aproxime de mim, quer ver? Vou chama-lo...
- Não (rindo) Não precisa demonstrar não... Bem, onde é o quarto?
- Por favor, me acompanhe... Cuidado com os degraus - disse tentando iluminar a escada - A chave está na porta, aqui. Gosta?
- Puxa, muito bonita mesmo. Não vejo a hora de tomar um banho e dormir.... - Não tem luz por causa da tempestade, bem deve ter percebido porque estou com a lanterna, né? A água deve estar gelada.
- Adoro tomar banho com água ao natural... Nunca tomo banho quente...
- Mas, se é assim, porque queria sair da chuva? Não estava gelada o suficiente?
- Garota!!! Você faz uns comentários!!! ( rindo ). Acho que vou me divertir muito por aqui.
- Bem, fique à vontade. Vou dormir. Boa noite.
- Boa noite.
Soraya correu ao seu quarto, trancando a porta em seguida. O desconhecido não parecia ser tão ruim, mas era um desconhecido. E, provavelmente não acreditara na estória de seus hóspedes que chegariam a qualquer momento. Resolveu arrastar um móvel para impedir melhor qualquer arrombamento. O barulho atraiu o desconhecido que foi até a porta de seu quarto...
- Está tudo bem com você?
- Sim... - Ah, esqueci de perguntar seu nome... E agora?, pensava, Soraya. Pensou dizer um nome falso, mas teriam que assinar um contrato de locação, então ele descobriria seu verdadeiro nome. Além disso, que mal havia em lhe dizer seu nome? - Olha, se preferir, posso te chamar de locadora e você me chama de locatário. O que acha? (rindo)
- So-Soraya Estrada...
- Soraya Estrada? Belo nome. Eu me chamo: Marcos Vieira. Dr. Marcos Vieira, às suas ordens.
- Ah, muito prazer. Boa noite.
- Boa noite... O dia amanheceu meio nublado, mas nada que lembrasse o vendaval da noite anterior. Soraya acordou com o telefone tocando. Teve que andar muito até chegar ao único aparelho que lhe restou. Os outros foram deixados como escambo em vários pontos da cidade... Realmente sua situação financeira estava mais do que precária. Mas agora com o novo inquilino, ao menos teria dinheiro para sair em busca de um emprego...
- Alo? - Ainda dormindo, garota? Que voz de sono é essa?
- Quem é?
- Seu primeiro e único inquilino (rindo) Os outros parece que foram desviados pelo temporal, né? (pausa) desculpe a brincadeira... Eu preciso de um imenso favor seu. Sai muito cedo, atrasado como sempre, esqueci uma pasta no meu quarto. Poderia traze-la até o hospital?
- Como conseguiu meu fone?
- Que garotinha desconfiada!!! Você publicou este número no jornal, querida, o frentista me passou o número assim como deve ter passado para metade da cidade...
- Desculpe... Em que hospital está?
- Nossa Senhora da Boa Morte...
- Ah, eu sei onde é... Chego ai em uma hora...
- Mas fica a uns três quilômetros...
- Preciso me produzir, doutor. Não acha que sairei toda desgrenhada correndo para levar sua pasta, né?
- Já vi que não tem jeito para ser enfermeira nem médica... Não sabe lidar com emergências...
- Você quer sua pasta ou quer me fazer um teste vocacional?
- Devo ter esquecido na cama, será fácil localiza-la... Aguardo você... (desliga)
- Que idiota, desligou sem nem agradecer... Está pensando que vai me fazer de empregada, está muito enganado... (desliga com raiva) ...
Soraya chegou bem atrasada, acabou se empolgando e gastando mais de uma hora somente para produzir-se. No saguão, perguntou pelo médico que foi tomar um café... Resolveu também tomar um café, afinal, não comeu nada antes de sair naquele frio... Poderia encontra-lo no bar e entregar-lhe a pasta, assim estaria livre da obrigação a ela imposta, mas não o viu no bar. Ficou sabendo que o hospital possui duas lanchonetes além do bar e, nas redondezas existem vários bares e restaurantes. Ele poderia ter ido a qualquer um deles e seria impossível encontra-lo. Por um momento, sua curiosidade falou mais alto, pensou em abrir a pasta e ver o que parecia ser tão importante para o médico... Havia muita gente no bar e desistiu da idéia, bebeu logo seu café e voltou ao saguão. Soube que ele já havia retornado, mas estava ocupado atendendo uma "cliente". Sentou-se no sofá que lhe foi indicado e pôs-se a esperar...
Pode notar que a mulher que ele atendia saiu da sala dele toda sorridente e suspirante... Ficou imaginando o que deveria tê-la deixado tão feliz... Pensou que seria a próxima, mas a recepcionista chamou outra paciente... Soraya tentou manter-se calma, pegou uma revista, mas não conseguia ler. Estava com a vida toda embaraçada, com dívidas, sem perspectiva de emprego e, ao invés de solucionar seus problemas, estava presa aquele sofá, vendo as horas passarem enquanto um bando de insatisfeitas desfilava à sua frente suspirando pelo inovador tratamento médico... Soraya sorriu de si mesma... Estava com ciúmes... Ou seria outro sentimento que não sabia explicar... A senhora saiu da sala com um belo sorriso e Soraya irritou-se mais ainda quando a recepcionista chamou uma terceira paciente, ignorando totalmente sua presença. Levantou-se e foi até a mesa da recepcionista: - Acho que não me expliquei bem, o doutor Marcos pediu que eu trouxesse uma pasta importante para ele. Está aguardando por mim...
- Se é só para entregar a pasta pode deixar comigo que eu entrego.
- Quero entregar na mão dele.
- Então terá que esperar. Ele tem muitas clientes para atender agora...
- Para mim quem tem cliente é garoto de programa, médico tem paciente!
- É só um termo.
- Não é um termo, é uma filosofia de trabalho e de vida! (pausa tensa) quer, por favor, dizer que estou aqui?
- Quando a clien... a paciente sair, eu falo com ele, tá?
- Quer saber, vai a merda!
Soraya sai sem sequer olhar para onde vai, esbarra numa enfermeira, desculpa-se e continua seu caminho. Ao passar pela frente do hospital, percebe que as salas têm janelas voltadas para o estacionamento. Vai olhando pelas janelas, discretamente, até que encontra a sala de Marcos. Chama por seu nome, ele sobressalta-se e a paciente solta um gritinho indescritível. Ele vai até a janela:
- Soraya, que coisa feia, espionar pela janela.
- Depois te conto porque fiz isso. Aqui está sua pasta.
- Você demorou tanto que nem me lembrava mais...
- Fiquei horas no saguão te esperando...
- Estava ai? Não me avisaram... Vou falar com a recepcionista, fique tranqüila... Ah, obrigado pelo favor...
- Tenha certeza de que não ficará somente no muito obrigado, doutor...
Não se sabe como o médico entendeu esse comentário, mas Soraya não estava brincando. Resolveu preparar um jantar inesquecível e aguardou a chegada do médico com impaciência. Não sabia direito porque fazia isso, afinal, nem o conhecia, mas para dizer a verdade, nunca soube porque fez tudo o que fez na vida, então...
Seria somente uma brincadeira a mais para superar os longos e solitários dias na mansão... Além disso, ela descobriria o que o médico tinha a oferecer deixando as pacientes tão sorridentes... Ligou a tv para passar mais rápido o tempo e, no noticiário, ouvia-se a repórter relatando o mais recente caso de assassinatos em série. Um maníaco parecia solto, apavorando algumas cidades do país. Os crimes seguiam uma seqüência, as vítimas eram mulheres jovens, bonitas, ricas e todas passaram recentemente por algum tratamento estético, especialmente, mesoterapia que é uma técnica que consiste em aplicar produtos que derretem a gordura localizada através de injeções subcutâneas e... Marcos demorou muito a chegar, tanto que Soraya até adormeceu no sofá, esperando-o.
- Ei locadora, você vive dormindo?
- Não me chame de locadora... E não vivo dormindo não. Fiz mil coisas hoje, inclusive um jantar delicioso, que já deve estar gelado por causa da sua demora...
- Puxa, Soraya, desculpe. Você não me avisou. Eu comi um sanduíche antes de vir pra casa. Mas, o jantar está incluindo no aluguel? Pensei que você só alugasse os quartos.
- Você é mesmo insensível, hein doutor? Não sei porque aquelas conformadas saem tão satisfeitas da sua sala. Você não sabe lidar com uma mulher de verdade...
- Do que está falando, Soraya? Não estou entendendo nada. (pausa) Está com ciúmes das minhas pacientes?
- Não são clientes? É assim que a recepcionista fala...
- Implicou com a recepcionista também...
- Não impliquei com ninguém, eu só queria que você comesse meu jantar!!! (cai em prantos)
- Soraya... Acho que você anda estressada... Vem aqui... Marcos a abraça e, por um momento, Soraya pensa estar protegida... Soraya, aos prantos, conta tudo o que lhe aconteceu recentemente. O acidente, a morte de seus pais e irmãos, as dívidas, enfim, tudo o que tem enfrentado. Marcos ouve calado até que ela termine. Acaricia seu rosto e calmamente lhe pergunta:
- Soraya, você não tem mais ninguém, nenhum parente agora?
- Não - funga Soraya- Não tenho nem o cachorro que disse que tinha no meu quarto. Eu inventei isso porque tive medo que você me assaltasse ou me estuprasse, sei lá...
- Pobre menina solitária... Vou te fazer um pouco mais feliz...
Dizendo isso Marcos a beija e Soraya entrega-se aquele beijo e as carícias de Marcos... Tudo parece perfeito até que ele para de acaricia-la e a encara sério.
- Desculpe-me, Soraya, não devia ter feito isso. Não se repetirá, prometo.
- Hã... Não devia, não repetirá? Porque? Não gostou de mim?
- Claro que gostei, você é linda, pura, verdadeira... Eu é que sou um ser inútil... Estou condenado a viver sozinho, não posso ter ninguém...
- O que quer dizer com isso?
- Não posso entrar em detalhes... eu vivo fugindo, Soraya. Não posso parar muito tempo no mesmo lugar. Não tenho o direito de me apaixonar por ninguém... Só isso. Já falei demais. Não posso falar mais nada. Vou tomar um banho e dormir. Talvez seja melhor eu me mudar para outro lugar. Não quero te fazer nenhum mal, eu... Acho que vou embora assim que amanhecer... Desculpe. Boa noite.
Incrédula, Soraya fica alguns minutos inerte, sem sequer pensar em nada. Depois tenta entender a atitude do médico, mas por mais que tente, não consegue... Sobe a longa escada e entra no banheiro para um banho demorado. Por mais que reflita não consegue unir os pontos, não entende o que pode estar acontecendo com Marcos... Sai do banho, coloca uma camisola sexy e deita-se, mas apenas para rolar pela cama... Imagina que, a poucos passos de seu quarto, marcos deve estar deitado, talvez dormindo tranqüilo e ela está a subir pelas paredes... Ele deveria pensar melhor antes de excitar uma mulher como Soraya, e depois parar pela metade, pois seria impossível que ela dormisse tranqüilamente como se nada tivesse acontecido.
Sem pensar, Soraya levanta-se e caminha até o quarto de Marcos. Pensa em bater à porta, mas decide entrar sem bater. Toca a maçaneta, girando-a e vai entrando lentamente. Marcos parece adormecido, mas percebe sua presença, assim que ela aproxima-se da cama...
- Acho que eu é que terei que arrumar um cachorro para me proteger de você...
- Não consigo dormir, estou excitada, quero sexo...
- Nossa, que cantada original, a melhor que já recebi na vida!
- Você não tem o direito de me excitar e depois ir dormir. Se você é broxa, eu não sou.
- Garota, seja menos vulgar. Não posso transar com você, só isso. Agora deixe-me dormir, ok?
- Você é gay?
- Claro que não!
- Serial killer?!. (pausa) É isso?
- Recuso-me a responder uma pergunta tão imbecil.
- Não me importo se você for o cara da televisão.
- Que cara da televisão? - O maníaco que mata mulheres bonitas, jovens e ricas...
- Se eu for o cara, você está protegida, afinal está falida, perdeu tudo, não é?
- Porque você é assim tão cruel comigo?
- Porque quero que entenda que não pode me amar, não vale a pena. Agora vai dormir, Soraya...
- Não vou. Quero entender suas atitudes, quero saber porque você me atrai...
- Sessão psicologia de madrugada é ruim, hein? (pausa) (irritado) Tá bem, você quer saber quem sou eu, você vai saber já..
Com força, puxa Soraya que cai na cama, Marcos coloca-se sobre ela, tolhendo-lhe os movimentos. Rapidamente, rasga um lençol em tiras que usa para prender os braços de Soraya à cama.
- O que está fazendo?
- Estou te estuprando, não é isso que quer? Não quer conhecer o cara da televisão? Sou eu mesmo, muito prazer, de preferência, acompanhado com muita dor!
- Está brincando, né?
- Nunca falei tão sério em minha vida, garota!
Dizendo isso, Marcos coloca uma tira de lençol na boca de Soraya, impedindo-a de emitir qualquer som. Durante muito tempo, Marcos a beija, chupa, morde e Soraya acaba sentindo uma mistura de prazer e dor que nunca experimentou antes. Sente vontade de gritar, uivar, morde-lo também, mas impedida de qualquer movimento ou atitude, ela apenas chora. Mas não é um choro somente de dor, é de prazer, de medo, de tantos sentimentos confusos que aquele desconhecido despertou nela... Seu choro transforma-se num soluço entrecortado, principalmente quando Marcos anuncia que irá parar, antes mesmo de penetra-la...
- Acabou a brincadeira, locadora. Não vou até o final, porque pode ser muito ruim para você. Vou te desamarrar e te deixar pensando na vida. Vou para um hotel e amanhã passo para pegar minhas coisas.
- Marcos... Por favor, fique. Eu prometo que não tento seduzi-lo. Já entendi que você não gosta muito de sexo e não pretendo insistir. Eu... preciso do dinheiro do aluguel. Você é meu único inquilino... Preciso de você e...
- Deveria pensar nisso antes de invadir meu quarto que, por sinal, paguei adiantado...
- Não tenho como devolver o dinheiro...
- Use-o para comprar anti-séptico e pomada. Vai precisar para curar os hematomas e escoriações...
- Marcos... pensa bem... eu não vou mais me meter na sua vida. Eu não faço mais jantar a luz de velas, nem tento te seduzir e você continua sendo meu inquilino. O que acha?
- Não dá, tenho mesmo que ir... Já devem ter-me descoberto aqui. Logo serei procurado e...
- Você é mesmo o cara da televisão?
- Não. Falei só para te assustar, mas eu o conheço. Sei que não é de brincadeira...
- Como o conhece?
- Não acabou de dizer que não se meteria mais na minha vida?
- Desculpe... Só me responde uma pergunta: O que você faz com aquelas pacientes que saem todas sorridentes da sua sala?
- Mesoterapia...
- Me..mesoterapia??? Ai.
- Tchau Soraya...
Marcos sai, deixando Soraya totalmente sem ação. Por um bom tempo, ela tenta entender os últimos acontecimentos, mas não há como entende-los...A descrição do serial killer, as atitudes de Marcos, tudo a leva a crer que é ele o maníaco. Mas, se é mesmo ele, porque a pouparia? Não deveria estar apaixonado por ela, não agindo da forma brusca e insensível como agia, então, porque a pouparia se fosse realmente um assassino... Acabou dormindo na cama dele e acordou no dia seguinte com batidas insistentes na porta principal. Desceu correndo, pensando ser Marcos, mas não era. Uma mulher aparentando uns cinqüenta anos, muito bonita e bem cuidada a aguardava impaciente. Soraya abriu a porta.
- Bom dia, senhorita...
- Soraya.
- Soraya... Toquei a campainha, mas não ouvi o som, então bati.
- Devem ter cortado a eletricidade.
- Eu... soube que você tem quartos para alugar...
- Sim, a senhora quer um?
- Talvez eu queira... Primeiro quero saber se tem outros hóspedes aqui..
- Não senhora. Somente eu estou morando aqui.
- Estranho. Informaram-me que havia um rapaz aqui... Marcos... Será que me enganaram?
- Ah, não. Havia sim, mas ele ficou poucos dias. Foi embora esta madrugada. Engraçado, só agora prestei atenção a este detalhe. Ele chegou e saiu de madrugada.
- Sabe para onde ele foi?
- Acho que para um hotel, mas deixou as coisas dele aqui. Voltará para buscar. Se quiser posso dizer que a senhora procurou por ele.
- Se não se importar, prefiro aguarda-lo aqui.
- É que ele deve vir somente a noite, eu tenho que sair para procurar emprego e...
- Pago seu dia e você me faz a sala até que ele chegue. (pausa) Você está coberta de hematomas e escoriações. Sofreu algum acidente?
- Não... quero dizer, foi meu... cachorro... ele tem mania de pular em cima de mim e me morder e...
- Entendo...
A conversa já ficava tensa e Soraya já não sabia mais o que dizer quando Marcos apareceu na porta. Soraya não soube se deveria sentir-se aliviada ou amedrontada, mas o atendeu. Ele entrou em silêncio, encarou a senhora que o aguardava...
- Mamãe... Me achou novamente...
- Você sabe que mamãe te encontra sempre, meu bebê. Porque então se esconde? Mamãe fica tão triste com isso.. Acaba até fazendo umas loucuras...
Mamãe? Bebê? Soraya já não entendia mais nada. Como é que um homem de seus trinta e poucos anos poderia ter uma mãe chamando-o de "meu bebê"? E porque deveria esconder-se dela? Para que não fizesse loucuras??? Agora é que não entendia mais nada mesmo. Mãe e filho trocaram alguns carinhos, depois Marcos foi ao seu quarto arrumar suas coisas. Soraya pensou em perguntar algo, mas calou-se. Já havia se machucado muito nesta estória e não queria mais se envolver. Mas a mulher, pareceu ler seus pensamentos porque desandou a falar.
- Casei-me e fui mãe muito jovem, com apenas 18 anos, eu ja estava casada há dois anos e ja tinha o Marcos, meu bebê... E, quando Marcos tinha apenas um ano, eu perdi meu mari do... Acidente automobilistico.... Foi um terrivel choque para mim... Só não morri também porque tinha o Marcos, meu bebê para criar... Apeguei-me a ele e lutei muito para dar-lhe tudo o que precisava. Deixei minha vida de lado para cuidar do meu amorzinho. O único motivo da minha existência. Até hoje, eu vivo porque Marcos existe. Não posso sequer imaginar que alguma mulherzinha qualquer possa toca-lo. Claro que não posso controlar todos os passos dele e, às vezes, alguma piranha acaba levando-o pra cama. Mas, nesses casos, eu logo corto o mal pela raiz, literalmente. Será que fui clara?
- Claríssima, minha senhora...
- Estou achando esses seus hematomas muito estranhos. Um cachorro, por maior que fosse, não faria isso... Não quer me contar o que realmente aconteceu, minha querida?
- É que eu sou sonâmbula, de vez em quando eu ando dormindo e sei lá o que faço. Hoje, por exemplo... acordei hoje desse jeito... Devo ter caído da escada ou sei lá... Não sei mesmo o que aconteceu. (pigarreia) A senhora quer um café? Vou preparar...
Soraya caminha rapidamente para a cozinha e a senhora a segue, desconfiada. Senta-se em uma cadeira, enquanto Soraya, nervosamente, apanha os apetrechos e começa a fazer um café. Após alguns segundos a senhora volta a falar com Soraya
- Queridinha, tenho cinqüenta e dois anos, não tente me enganar... Se me contar a verdade, posso poupar você. Afinal, já matei duas hoje, estou cansada...
- A senhora está blefando, né? (ri nervosamente)
- Não acredita? Vou te mostrar. (abre a bolsa e tira duas calcinhas totalmente ensangüentadas). Eu peguei como souvenir. Essa, vermelha, é de uma loura metida chamada Leila sei lá de quê. Essa aqui é de uma mulher quase da minha idade. Vê se pode, uma velha querer se relacionar com um rapaz que tem idade para ser seu filho?
- Mas a senhora faz a mesma coisa...
- É diferente. É meu filhinho, meu bebê. Eu o gerei, carreguei por nove meses no meu ventre, eu o pari, o amamentei. Ele é parte de mim e eu parte dele. Ninguém poderá interferir nisso!
- Gente, que falta faz um marido! Acho que vou procurar uma agência de casamentos hoje mesmo. Não quero terminar nessa paranóia, não...
- Impressão minha ou você está ironizando meus sentimentos?
- Não estou fazendo nada, minha senhora, só quero que a senhora e seu filho saiam daqui o mais rápido possível e eu possa esquecer essa loucura toda...
- Pois eu acho que está ironizando e estou ficando muito irritada com isso... A senhora, sorrateiramente, agarra uma faca e, imediatamente avança em direção a Soraya, que grita histérica. Marcos, que descia a escada, corre até a cozinha, grita para que sua mãe pare, mas esta parece enlouquecida e continua tentando esfaquear Soraya. Marcos não tem outra alternativa a não ser usar a força e, claro, não precisa fazer quase nada para desarmar a frágil senhora que cai em prantos.
Marcos a abraça e acaricia, como uma criança, enquanto lhe diz para esquecer Soraya que não é nada para ele. E, pela primeira vez, Soraya sente-se feliz por ser tão desprezada por um homem. É bom mesmo que ele nem a enxergue. Que siga com a mãe para bem longe e nunca mais lembrem-se dela... A mulher vai se acalmando até que deixa-se levar pelo filho até o carro. Marcos volta para falar com Soraya.
- Soraya, perdão por tudo... Não queria magoa-la
- Deixa prá lá. Vai embora, senão sua mãe pensa que estamos demorando muito na despedida e me esfaqueia...
- Posso te pedir um último favor?
- Se for rápido e indolor, pode...
- Me dá um pouco desse café? Está com um aroma delicioso e eu estou pregado... Não tinha para onde ir, então troquei plantão com um colega, enfim... estou sem dormir e...
- Como pode ser tão frio? Como pode encarar tudo isso sem se alterar? (pausa) Ah, deixa pra lá... Vou colocar bastante café neste copo descartável. Você vai beber no carro. Aproveita e mistura um pouco de cianureto e oferece para sua mãezinha, tá?
-Responde rapido, Soraya, é cianureto ou cianeto? E qual deles devo dar pra minha maezinha... Sodio, Potassio ou hidrogenio? (ri nervosamente)
- Você é mesmo um imbecil... Merece a mãe que tem... So tenho pena das coitadas que você seduziu. Morreram em vão...
- Soraya, eu... só queria descontrair nossa conversa... eu lamento muito... eu...
- Adeus, doutor Marcos. Agora eu é que não quero mesmo conversa contigo...
Marcos sai e Soraya respira aliviada. Tranca todas as portas e janelas, serve-se de uma xícara dupla de café e liga a tv para distrair-se.. Em edição extraordinária, a repórter relata detalhes do crime que abalou a cidade. Duas mulheres mortas no mesmo dia, uma dona de casa, de cinqüenta anos, cujo nome não foi autorizado para divulgação e uma jovem de apenas vinte e dois anos cujo primeiro nome era Leila... Em comum apenas dois detalhes, as duas foram encontradas sem calcinha, e, recentemente, teriam passado por sessões de mesoterapia....
Soraya suspirou entre estarrecida e aliviada. Levantou-se lentamente, desligou a tv, pegou uma lista telefônica e pôs-se a procurar imobiliárias. Não seria seguro morar sozinha na mansão. Poderia vende-la, com o dinheiro, comprar um pequeno apartamento e investir o restante num negócio qualquer. Começou a fazer uma lista das imobiliárias e corretores e, em seguida, começou a ligar. Era quase noite quando terminou as ligações. Estava subindo para preparar um banho, quando o telefone tocou. Alguém dizia ter ligado várias vezes durante o dia, sempre encontrando a linha ocupada. A pessoa queria saber sobre os quartos para alugar, ao que Soraya respondeu:
- Sinto muito, mas nunca tive quartos para alugar aqui na mansão. Deve ser algum trote...
- Mas está aqui no jornal...
- Vou reclamar na redação logo cedo. Onde já se viu publicar anúncios não autorizados?!. Dizendo isso, Soraya desligou o telefone e subiu para seu banho...
Conto 4:
Rainha dos congelados:
Lou de Olivier
Atenção: Por ocasião de sua publicação em livro impresso, este conto causou polêmica, por isso, esclarecemos que a personagem principal, Maria Lucia é uma secretaria da mesma forma como poderia ser uma dentista, uma cozinheira, enfermeira, coveira ou qualquer outra profissão. A intenção de Lou de Olivier não foi denegrir imagem de nenhuma secretaria, ao contrario, a intenção do texto é mostrar a força de uma mulher que enfrentou a pobreza, o desprezo e muitos contratempos e venceu na vida.
Maria Lúcia era uma bonita mulher. Alta, olhos claros, cabelos de um ruivo escuro que contrastavam com a pele bem clara. Não tinha posses, por isso, vivia para trabalhar. Perdeu seu pai, aos 3 anos de idade. Nem o conheceu direito, só sabia que ele saiu para comprar pão e cigarros e nunca mais voltou, vítima de uma bala achada pois, se fosse perdida, ninguém a acharia...
A mãe, com muito sacrifício, a criara trabalhando como diarista e, assim que pode entender a situação, Maria Lúcia, empenhou-se em estudar para melhorar de vida e poder cuidar de sua mãe. Lá pelos dez anos, já estava ajudando a vender lanches na cantina da escola e, com isso, podia ajudar no orçamento, já que ganhava alguns trocados pela ajuda e ainda podia levar os restos de lanches para casa. Foi assim que aprendeu a fazer os mais variados sanduíches e era só o que sabia fazer em casa. Não tinha o mínimo jeito para faxina, não era boa para controlar o orçamento doméstico e, além dos sanduíches, não sabia sequer fritar um bife acebolado.
Na adolescência decidiu-se pelo curso de secretariado. Estudava a noite, trabalhava o dia todo e, com esforço, conseguiu formar-se. Mudou de emprego, passou a ganhar mais, podendo assim, alugar uma casa maior e mais confortável. Foi quando, finalmente, pode proporcionar descanso à sua mãe. Malu já ganhava o suficiente para sustentar as duas sem que a mãe, agora idosa e doente, precisasse se matar em faxinas. Mas, Malu queria mais, queria ser secretária executiva, dessas que parecem decidir mais do que a própria presidência das empresas. Queria comprar sua casa própria, ter uma empregada, enfim, vencer na vida. Recomeçou a estudar secretariado avançado e fez também um cursinho de Inglês comercial. Estava se formando e a idéia de ser uma grande secretária executiva povoava sua mente, quando leu, pasma, a carta que a diretoria havia enviado a ela. Era uma proposta de acordo com a empresa, que passava por dificuldades e, contendo verbas, estava dispensando vários funcionários, entre eles, Maria Lúcia. Não teve como argumentar, simplesmente aceitou o acordo, arrumou suas coisas e saiu desiludida, mas não desanimada, resolvida a encontrar logo outro emprego.
O dinheiro do acordo, juntamente com benefícios a que tinha direito, daria para comprar uma casinha para a mãe, um carro e ainda sobreviver alguns meses até conseguir outra colocação, mas ela preferiu investir o dinheiro. Poderia multiplica-lo para depois decidir o que comprar. Enquanto procurava emprego, tentava ajudar a mãe nos afazeres domésticos, mas era uma negação. Não sabia lidar com o material de limpeza, queimava toda a comida e até os sanduíches que eram sua especialidade saíam todos sem gosto, devido a falta de treino. Sua mãe sempre dizia que ela precisava casar ou ao menos encontrar um bom rapaz que a encantasse, só assim poderia se interessar pela casa e pela rotina caseira.
Ela ria muito e dizia que ainda tinha tempo. Mas, quando se via sozinha, ela pensava que realmente precisava de alguém. O tempo havia passado, tinha agora trinta e uns anos e nada além de uma grande vontade de progredir na vida. Tinha namorado algumas vezes, mas nada sério. Como se diz por ai, tinha ficado, mas não encontrou ninguém que pudesse ficar e permanecer... De qualquer forma, sentia mesmo um grande vazio e esperava que, com o novo emprego, viesse também aquele famoso príncipe encantado que a maioria das mulheres espera e, quando acha que encontrou, nem cogita que o pobre, que nada mais é do que um ser humano, possa de repente transformar-se em sapo e colocar tudo a perder... Afinal era um sonho e, Malu queria sonhar direito. Ele seria lindo, cabelos negros porque Malu tinha fixação por cabelos negros. Desde a infância, sempre chamada de bola de fogo, cabeça de beterraba, espiga de milho e vários apelidos maldosos que os colegas insensíveis lhe impingiam. Crescera sonhando em um dia ter lindos e brilhantes cabelos negros, mas desistiu da idéia na primeira tentativa de tintura, afinal com a pele muito branca e os olhos muito claros, era impossível manter os cabelos negros. Conformou-se então com seus cabelos vermelhos e passou a imaginar seu príncipe encantado com a cor dos cabelos que ela própria não podia ter. Além dos cabelos negros, o príncipe também teria olhos verdes, pele alva e um sorriso lindo revelando duas covinhas irresistíveis. Não precisava ser rico, na verdade poderia até ser bem pobre, pois Maria Lúcia seria capaz de trabalhar para sustentar este homem se um dia cruzasse seu caminho...
No metrô super lotado, ela ria deste pensamento, enquanto todos a encaravam imaginando se seria louca ou apaixonada ou apenas mais uma estressada contando piadas para si mesma. E Malu continuava em seus devaneios sem se importar com tantos olhares curiosos .
Chegou para a entrevista de emprego e quase desmaiou quando entrou na sala e o homem, talvez futuro chefe, a cumprimentou. Era ele! Alto, cabelos negros, olhos verdes e, ao sorrir, duas covinhas que tiraram Malu do mundo real. Demorou um tempo para entender que ele lhe oferecia uma cadeira para sentar e, por sorte, ele também pareceu interessado. Daí para ser aceita no cargo foi um segundo e, também rapidamente, veio o convite para almoçar e "conhece-la melhor".
Malu estava encantada com Rafael, tão encantada que nem se importou quando ele disse ser casado, ter dois filhos, uma sogra caduca e dois cães fila para criar. Também não prestou muita atenção quando ele começou a ladainha dos mal casados, aquela que diz que a mulher é fria, não o entende, é burra, não acompanha sua evolução, o casamento é um tormento e ele só não se separa por causa dos filhos e também para não traumatizar os cachorrinhos de estimação tão acostumados com eles enquanto casal...
Malu mal conseguia trabalhar a tarde toda aguardando pelo jantar a noite, quando eles sairiam para continuar se conhecendo melhor e, radiante, imaginava estar prestes a realizar seu grande sonho de amor. Após o jantar foram a um motel, desses que Malu só conhecia de anúncios em revistas. E foi uma noite maravilhosa. Fizeram amor por horas, teve até jura de amor eterno e muitos beijos incansáveis em frente sua casa já pela madrugada, quando ele a deixou. Teria sido a melhor noite da vida de Malu não fosse pelo fato de encontrar sua mãe passando mal. A pobre senhora já passando dos 70, tendo se sacrificado tanto pela vida, a cada dia parecia mais fragilizada e neste dia foi hospitalizada. Malu se dividia entre a apreensão pelo estado de saúde de sua mãe e a euforia do encontro amoroso. E já não sabia se estava feliz ou triste naquele conturbado dia.
A mãe teve que ficar internada e Malu, sozinha em casa, pensava que passava do momento de ter um homem em sua vida. Neste momento decidiu investir em sua relação com Rafael. Se seu casamento estava mesmo no fim, seria o momento ideal para separar-se e ficar com ela em definitivo. Chegou a propor-lhe isto, ele sorriu mostrando as lindas covinhas, disse que era uma ótima idéia, mas nunca mais tocou no assunto. Malu fazia tudo para atrai-lo, trabalhava duro na empresa que crescia a cada dia, chegava em casa, cuidava da mãe e ainda encontrava tempo para se produzir para seu grande amor. Os encontros entre os dois iam se espaçando cada vez mais e Malu vivia marcando almoços e jantares em sua casa para finalmente apresenta-lo à sua mãe, mas Rafael sempre desmarcava ou às vezes nem aparecia sem sequer desmarcar. Malu começou a achar que era porque não sabia cozinhar bem, então resolveu investir nisso. Comprou vários livros de receitas e fazia todos os cursos de culinária que encontrava. Em pouco tempo estava cozinhando perfeitamente e sua mãe a elogiava, dizendo que finalmente estava tomando gosto pelos afazeres domésticos. Malu sorria, ansiando pelo momento em que poderia apresentar Rafael à sua mãe e revelar o motivo de sua transformação...
Mas ele nunca vinha. A cada convite, Malu fazia um prato mais delicioso e sofisticado e aguardava até que o estômago reclamava e ela acabava comendo sozinha ou em companhia da mãe e congelando o restante para quando ele viesse. Mas, ele nunca vinha. Quando o via, questionava porque ele tinha tempo para almoçar, jantar, sair com ela e nunca tinha tempo para ir à sua casa. Ele dizia que era a falta de tempo, que ela morava longe, que o casamento estava se desmoronando de vez, que se tivesse paciência, ia acabar casando com ela e assim passou-se quase um ano. A mãe tinha sido internada novamente, Malu já estava quase sem economias, pois a doença da mãe, internações, remédios e consultas a faziam gastar muito. O sonho da casa própria, do carro e de tantos outros bens que sonhara adquirir havia se desmoronado. Era época de natal e Malu resolveu fazer um grande banquete para ela e seu amor na passagem de ano. Convidou-o com duas semanas de antecedência, antes mesmo do natal, para que não tivesse como recusar. E ele garantiu que iria, até porque sua mulher iria viajar com as crianças e a sogra e ele estaria livre para ela.
Imediatamente iniciou a produção. Sacou o restante do dinheiro que tinha, trocou as cortinas da casa, comprou tapetes novos, encheu a casa de flores. Sua mãe gostava de flores e, certamente, se encantaria ao voltar do hospital, vendo a casa toda florida. Dois dias antes da data marcada, Malu já começou a cozinhar os quitutes. Produziu uma salada fria, um strogonoff caprichado e uma sobremesa de dar inveja aos melhores cozinheiros. No dia foi à cabeleireira, fez um belo penteado, maquiagem, mãos, pés. Saiu do salão sentindo-se uma estrela de cinema, o coração aos pulos, contando cada minuto que faltava para as 20:00 horas...
Ligou para o hospital, a mãe continuava na mesma, ainda ficaria internada por alguns dias. Malu pensou que as flores murchariam até a volta de sua mãe... Tentou não pensar mais nisso e iniciou sua espera. As 19:00 horas já estava impaciente, ligou para uma amiga para conversar um pouco, se acalmou... O relógio, lentamente, acusava 20:00 horas, depois 20:30 horas; ele estava atrasado. 21:30 horas, Malu cochilou no sofá. Acordou, o relógio marcava 23:30 horas. Assustada sacudiu-o imaginando estar quebrado, confirmou o horário e começou a pensar numa tragédia qualquer. Afinal, Rafael havia prometido vir e ser pontual. Talvez tivesse sido assaltado ou sofrido um acidente, ou... Olhou para o telefone, nunca tinha ligado para a casa dele. Rafael pedia que não ligasse para não "piorar as coisas". Ela não ligava. Mas, este dia era especial, era comemoração de fim de ano, e ele devia estar sozinho, já que todos tinham viajado... Insegura, trêmula e apreensiva, discou cada número e com o coração aos pulos ouviu os toques, um, dois, três... Uma voz de mulher atendeu:
- Alô?
- A-alô... ( na pequena pausa que fez pode ouvir vozes e risos ) Q-quem fala?
- Aqui é Ligia. Com quem quer falar?
- Com... o Ra- Rafael...
- Um momento... Amorzinho, é para você!
- Quem é, querida?
- Não sei, uma mulher meio gaga...
Malu não pode ouvir mais nada, desligou enquanto as lágrimas rolavam livres pelo seu rosto. Chorou por um bom tempo, depois sentou-se à mesa, jantou sozinha. Guardou o restante no freezer e, ao examina-lo notou a grande quantidade de congelados que havia nele. Olhou as datas, alguns congelados lá estavam há quase um ano, desde que começou a convidar Rafael e este sempre lhe dando o bolo... Pensativa, fechou o freezer e desandou a beber. Bebeu vodca com limão, vermute com cerejas, uísque puro e, de brinde na virada, quase uma garrafa de champanha daqueles que sobem rapidinho. Estava bem bêbada quando desandou a chorar e já nem sabia direito porque chorava, afinal estava sem suas economias, sua mãe estava à beira da morte e seu príncipe encantado nunca esteve tão bem com a mulher dele. Chorou por tudo isso e, quando foi dormir, estava desgrenhada, suja e arrasada. Só acordou na tarde seguinte, com uma grande dor de cabeça e uma decisão tomada. Tinha se especializado, sem querer, em congelados. Sabia os mais variados pratos, sabia as técnicas de congelamento e, com a mãe doente, precisava estar em casa para cuidar bem dela.
Escreveu à mão mesmo uma plaquinha dizendo: "Congelados aqui". Conseguiu um arame e colocou a placa no portão. Entrou, procurou papel e caneta e iniciou sua carta de demissão. Nem bem começava a escrever, a campainha tocou. Era uma vizinha querendo saber dos congelados...
FIM
Mais Contos
|
|