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BEM-VINDO(A) AO WEBSITE PESSOAL DE ... LOU DE OLIVIER
Ela é tudo... Mais que tudo... Ela é tudo de bom!
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Psicopedagoga, Psicoterapeuta, Especialista em Medicina Comportamental. Precursora da Multiterapia, Criadora do Método Terapêutico do Equilibrio Total/Universal. É também Escritora, Dramaturga, Diretora Teatral, Poetisa e Apresentadora de TV. Ex atriz, ex bailarina classica, ex coreografa. Atualmente pratica Dança do Ventre, tribal e Flamenco. Saiba mais sobre Lou de Olivier em currículo, no menu à esquerda.
Ao Escritor dos Escritores, O ETERNO, que diariamente escreve a historia de cada vida do planeta, agradeço estes meus dons: inspiração de meus escritos,
da minha arte, das minhas pesquisas cientificas, minhas atuações em Saúde, Arte e Educação". By Lou de Olivier
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Mistica...
© Lou de Olivier
Contos escritos durante seus estudos em Neurolinguistica e também em Física Quântica. Quase todos os contos são fundamentados em fatos reais porém, obviamente, tem muitos fatores ficticios. Ao leitor é reservado o direito (e o dever) de perceber onde termina o real e começa a ficção (ou vice-versa)
Com os seguintes textos (que estão na sequencia desta pagina, não há links):
Mística (poesia)
A imortal (conto em um capitulo)
Intrusa em sua própria vida (conto em 6 capitulos)
Apartamento na praia (conto em um capitulo)
O triângulo secular (conto em 2 capitulos)
Inferno no céu (conto em um capitulo)
Todas as minhas vidas -relato de um coma (conto em um capitulo)
Leia na sequencia:
Mística...
Fui ser da noite
Fui luz do dia
Fui anjo escuro
Na reza fria
Mergulhei no céu
Caí no abismo
Senti o golpe
Do egoísmo
Saí do meu corpo
Entrei no espaço
Vi outros mundos
Entrei em colapso
Não sei ao certo
Se voltei a mim
Só sei que quero
Ir até o fim
Ainda sigo este caminho
Ainda espero amar
Mas, se nada mais houver,
Hoje, já sei voltar...
By Lou de Olivier
Atenção: Os textos aqui escritos são baseados em fatos reais, porém contém detalhes ficticios, não são esotéricos nem religiosos também não se baseiam em teorias espíritas. Estes textos são fundamentados em experiências práticas e pesquisas teóricas aprofundadas em Cinestesia/sinestesia (pela visão da PNL) e Física Quântica.
Conto 1:
A imortal ( em um capitulo)
Lou de Olivier
Ana sentiu-se feliz quando abriu a mensagem vinda pelo computador. Era um convite. Uma de suas peças teatrais estava sendo encenada em um festival e ela era convidada de honra para a cerimônia de entrega de prêmios. Ela logo pensou que seria uma ótima oportunidade de voltar à vida.
Ana estava afastada de tudo e todos desde o acidente que sofreu e, no qual, perdeu sua família. Pelo trauma sofrido com o próprio acidente e, mais ainda com a perda das pessoas mais queridas, ela afastou-se da sociedade como um todo. Parou de escrever, trancou-se em casa e isolou-se de tudo e todos. Aos poucos, os amigos foram se afastando, os convites para eventos foram diminuindo até que ninguém mais a contatou. E ela também não pensou mais em manter contato com ninguém.
Aquele convite a fez renascer e passou a contar os dias para a chegada desse evento. Um dia antes foi ao cabeleireiro e ao massagista e preparou-se física e psicologicamente para esta tão esperada homenagem.
Como não conhecia bem a cidade onde seria homenageada, saiu com muitas horas de antecedência e pode, além de tudo, ir conhecendo a estrada e admirando a bela paisagem que se mostrava pela janela de seu carro. Parou para fazer um lanche e sentiu-se muito feliz quando foi reconhecida e até lhe pediram um autógrafo. Pensou que seu isolamento não a havia condenado ao esquecimento. O público ainda lembrava dela.
Era quase noite quando estacionou seu carro em frente ao teatro municipal da cidade e, ao entrar, notou que o elenco já se preparava para entrar em cena. Mesmo assim, a diretora do grupo pode vê-la e falar com ela, ainda que por alguns poucos minutos, antes de dirigir-se ao camarim para orientar o elenco que, logo entraria em cena. A peça tinha feito tanto sucesso que arrematou todos os prêmios e seria apresentada naquela noite somente para autoridades e celebridades e, em seguida, receberia as premiações que também incluíam melhor texto teatral e, claro, Ana também teria seu troféu. Seria um a mais em sua vasta coleção, mas este era especial pois, marcaria sua volta aos palcos e ao teclado de seu computador, escrevendo textos teatrais....
Um repórter aproximou-se de Ana e pediu que ela dissesse algumas palavras para o noticiário local. Ana disse que deveria ser rápido, pois já havia soado a primeira chamada da campainha. O repórter disse que seria rápido e, dirigindo-se a câmera, falou:
- Estamos aqui, diretamente do teatro municipal, onde, em minutos, será apresentada a peça teatral que arrematou todos os prêmios do festival e vamos falar um pouquinho com a autora desse maravilhoso texto, a consagrada Ana Latromi. (para Ana) - Ana, somente uma pergunta: Até hoje, somente textos teatrais de autores mortos foram encenados em festivais. Como se sente sendo a primeira autora viva encenada num festival e ainda com um texto tão aplaudido e levando todos os prêmios?
Ana ficou em silêncio alguns segundos, tempo suficiente para refletir sobre a pergunta do repórter. De fato, nunca ninguém havia montado uma peça de autor vivo para participar de festivais. Todos os elencos preferiam autores já falecidos e peças de domínio público para, inclusive, evitarem a cobrança de direitos autorais. Ainda desconcertada, Ana respondeu apenas:
- Eu me sinto meio... morta.
Ouvindo os risos do repórter e de sua equipe, Ana dirigiu-se ao seu lugar na platéia, porque já havia sido dado o terceiro sinal e as cortinas já estavam se abrindo. A encenação começou e a primeira cena desenrolou-se normalmente mas, a partir da segunda cena, Ana começou a notar que tinham modificado muito o texto.. Tanto que, a partir da terceira cena, já não havia mais nada do que ela escrevera no original. Indignada, levantou-se de sua cadeira e gritou bem alto:
- Parem esta encenação. Este texto não é o meu original. Vocês acabaram com meu texto!!!
A platéia não se moveu, continuou rindo muito com as cenas de pastelão que o elenco continuava encenando. Ana correu e subiu ao palco:
- Eu já disse que este não é o meu original, eu quero que parem imediatamente esta encenação!!!
As pessoas pareciam não vê-la, nem ouvi-la. Uma atriz passou correndo e esbarrou com força em Ana que desequilibrou-se e quase caiu do palco. Agora Ana já estava chorando e imaginando que aquele fosse um grande pesadelo, ainda em prantos, tentou mais uma vez se fazer ouvir:
- Atenção, iluminador, por favor, dê black-out, esta peça não pode continuar, por favor, baixem o pano, fechem esta cortina, por favor, façam alguma coisa...
O iluminador desligou o foco de luz de Ana e jogou toda a luz no elenco que continuava encenando a peça distorcida. Ana, cabisbaixa, saiu do palco e caminhou pela platéia que parecia não enxergá-la e continuava rindo muito com o pastelão que se desenvolvia no palco. Ana, em silêncio, caminhou até seu carro, entrou e saiu dirigindo, pensativa, tentando entender o que afinal, estava acontecendo com ela.
Após dirigir por um bom tempo, Ana avistou uma pequena multidão que rodeava um carro acidentado. Curiosa, estacionou o carro e foi ver o acidente de perto. A medida em que se aproximava do local do acidente, parecia reconhecer o carro, parecia ser o carro em que viajava com sua família e no qual se acidentara, mas sorriu achando que estava mesmo confusa, como poderia estar vendo aquele carro novamente se o acidente tinha ocorrido há tantos anos. Ao chegar bem perto do local, não pode deixar de soltar um grito horrorizado. Era mesmo o carro em que sua família morreu e, atirada ao lado do carro, lá estava ela. Era ela mesma, Ana, agonizando em meio aquela multidão de curiosos...
Ninguém pareceu ouvir seu grito nem notar sua presença e agora Ana já estava desesperada. Gritando e chorando muito, correu ao seu carro e saiu dirigindo em alta velocidade. Não via a hora de chegar em sua casa, tomar um longo banho e esquecer aquele terrível episódio ou, quem sabe, pudesse acordar de repente e perceber que tudo não passava de um horrível pesadelo que se resolveria com um bom chá e um abraço de alguém que pudesse estar ao lado dela na vida real...
Mas, ao chegar em sua casa, notou que ela estava muito diferente. Já havia amanhecido e o sol já iluminava a cena. A casa agora estava pintada de bege com janelas, portas e portões pintados de branco, muito diferente da casa que deixara ao iniciar viagem para aquela noite que deveria ser de homenagens a ela. Ao sair, deixara uma casa descuidada, de cor escura e janelas sempre fechadas. Agora, a casa estava toda clara, bem cuidada, com as janelas abertas e havia um garoto de uns seis anos aproximadamente brincando com um cãozinho em frente a casa. Ana aproximou-se e tentou falar com o garoto mas este assustou-se e entrou correndo na casa. Ana não desistiu e tocou a campainha. Logo uma senhora saiu e dirigiu-se ao portão. Ana falou:
- Bom dia, senhora, eu estou meio perdida aqui, talvez tenha errado o endereço... Nem sei como me explicar mas a senhora pode me confirmar o endereço daqui?
- Claro. Esta é a Avenida vinte e cinco de abril e o número desta casa, como pode ver na placa, é 2006.
Ana engoliu em seco e tentando mostrar-se calma, perguntou:
- A senhora mora aqui há muito tempo?
- Uns cinco anos mais ou menos, porque?
- Eu... acho que estou mesmo perdida... A senhora pode me dizer quem morou antes nesta casa?
- Ah, posso sim, a antiga moradora foi uma grande dramaturga. Escreveu peças lindíssimas. Uma dessas peças tem sido encenada em muitos festivais e tem arrematado todos os prêmios. Parece que hoje mesmo está havendo uma homenagem a ela numa cidade do interior, não vi direito, meu filho mais velho é que gosta muito de teatro e viu esta notícia no jornal.
- Ah, que interessante. A senhora sabe para onde esta dramaturga foi? Ela se mudou há muito tempo?
- Nossa, a senhora está mesmo perdida por aqui. Não soube do acidente? Ela morreu num acidente muito grave, isso já faz uns seis anos. A senhora não soube de nada? (pausa) A senhora é parente dela?
Ana não respondeu, a mulher continuou falando com ela mas Ana apenas virou-se e começou a caminhar a pé. Por mais incrédula que ela estivesse, precisava admitir que estava andando por uma dimensão paralela ao seu tempo. Talvez ainda estivesse agonizando durante o acidente e tivesse se projetado ao futuro ou talvez já estivesse morta há muito tempo e tivesse conseguido entrar em algum intervalo espacial assistindo a sua homenagem ou quem sabe não estivesse nem viva nem morta e conseguisse se materializar em diversas épocas e espaços. Fosse o que fosse, ela já não pertencia ao mundo que a estava homenageando.
Começou a sentir-se muito leve, tinha a sensação de que seu corpo flutuava ao mesmo tempo em que adormecia primeiramente suas mãos e pés e, em seguida, seu corpo todo.
Olhou para seus pés e viu que eles já não existiam, estavam se desfazendo em meio a uma neblina como se estivesse se desintegrando. Agora suas pernas também já se misturavam a neblina e esta neblina ia se diluindo no ar. Não demorou muito para que seu corpo todo se diluísse naquela neblina e subisse pelo ar, espalhando-se e tornando-a apenas um sopro de brisa. No local do acidente, alguém cobriu seu corpo com uma lona. Algumas pessoas rezaram e a grande maioria retomou seu caminho até porque a polícia já estava cuidando de fazer o trânsito voltar ao normal...
FIM (ou apenas o começo de um universo paralelo)
Conto 2
Intrusa em sua própria vida
By Lou de Olivier
Texto escrito em seis capítulos, que podem ser reunidos em texto único.
Capitulo I:
Passava da meia noite quando Ana resolveu sair caminhando a pé pelas ruas da pacata cidade que, há alguns meses, nem sequer constava em seu mapa. Precisava entender o que havia acontecido e continuava acontecendo com ela... Um repentino vento frio surgiu zumbindo em seus ouvidos e tornando o passeio mais desgastante do que deveria ser.
Ana não tinha mais casa nem trabalho, encerrara as atividades profissionais, desligara água, luz, telefone, Internet, transformando sua casa num barco ancorado em terra desconhecida e o local onde produzira tantos e belos textos, recebendo pessoas do mundo todo, era agora, somente, uma sala vazia e inútil.
Era uma escritora consagrada, mulher inteligente, culta, admirada por todos, como podia ter se deixado levar por essa caótica situação? Isso, ela não sabia responder, mas sabia exatamente quando começara, foi no dia em que encontrou André pela primeira vez. Não foi um encontro normal, ela o procurara para tentar amenizar seqüelas adquiridas num tratamento estético mal sucedido. Deveria ser apenas uma consulta comum, mas Ana sempre vendo além do que devia, ao avistá-lo encantou-se com a luz que ele exalava. Deveria ser sua aura ou algo assim, Ana via muito além das outras pessoas mas, na prática, nada entendia dessa sua capacidade de ver auras e luzes nas pessoas. Foi logo dizendo isso a ele, ao que ele respondeu que poucas pessoas notavam isso, que ele usava essa força para ajudar as pessoas.
Foi a palavra mágica para Ana encantar-se de vez com André, já que ela vivia para ajudar as pessoas de todas as formas. Conversaram animadamente sobre vários assuntos e, quanto as suas complicações estéticas, ficou decidido apenas que ela faria algumas sessões de drenagem linfática...
A partir dai, Ana passaria a viver cenas estranhas, descabidas mesmo e sua vida nunca mais seria a mesma. A cada vez que tentava chegar à clínica de André para as drenagens ou para consultas, aconteciam-lhe coisas muito estranhas, desde errar o caminho e se ver em outro bairro sem mais nem menos, até fenômenos bem mais esquisitos.. O mais estranho foi, sem dúvida, num ia ensolarado em que saiu para sua consulta toda animada e, quando aproximou-se do bairro em que a clínica se localizava, o sol sumiu de repente, o céu tornou-se cinza escuro, um vento estranho e forte começou a soprar arrancando as folhas das árvores e arremessando-as violentamente contra o pára-brisa do carro de Ana. Ela não se intimidou nem sequer cogitou que esse fenômeno parecia bem estranho, apenas seguiu seu caminho e passou por sua consulta...
André passou a agir com ela de forma dúbia, às vezes tratando-a com carinho e amizade, em outras com uma aspereza que ela não entendia, mas em todas as vezes conversavam e ela se abria muito. André parecia meio alienado, meio cego diante de Ana, talvez o termo certo seja anestesiado. Ana era muito cortejada e sempre atraia muito os homens, mas André parecia não vê-la como mulher, aliás não a via de forma alguma, e isso intrigava Ana. Era a primeira vez que ela se deparava com um homem que nem sequer a via. Parecia haver entre eles um escudo invisível que não o deixava vê-la. E isso parecia atraí-la mais e, talvez por isso, ela se animou a conhecê-lo melhor.
Um dia, ele, finalmente, pareceu enxergá-la. Na verdade, ao vê-la, quase gritou que ela estava diferente. Ana perguntou-lhe se estava diferente para melhor ou para pior e ele respondeu animadamente:
- Para melhor, claro!
Ao dizer isso, ele abaixou a cabeça meio constrangido, talvez por achar que tinha se excedido ou por que a atendente ouvira o elogio feito a Ana. Foi nesse dia que tiveram uma conversa muito elevada, num nível que Ana estava acostumada a ter apenas com seu irmão e com raras amigas e nunca com um homem praticamente estranho. Tocaram em assuntos que, para os dois, teriam importância vital e combinaram um encontro onde dariam continuidade a essa conversa. Ele viajaria em breve mas, assim que voltasse ligaria para continuar essa conversa tão importante.
Mas o tempo passou e André não ligou e, enquanto ele não ligava, Ana começava a se ver envolvida em uma estranha energia que parecia remetê-la para muito longe dele. Quando uns vinte dias depois, ela resolveu ligar e ver por que ele não a contatara, ele já estava se recusando a atende-la e Ana não conseguia entender por que. Insistiu por duas vezes, mas foi atendida no saguão da clínica, como se fosse uma pedinte e convidada a retirar-se sem sequer poder passar-lhe um recado. Não se deu por vencida, procurou o endereço residencial dele, produziu-se de forma provocante e foi ao apartamento dele. Qualquer homem sentiria -se honrado com aquela sexy visita inesperada mas André ofendeu-se, disse estar com a noiva e a mandou embora sem sequer vê-la, falaram-se apenas pelo interfone.
Ana não conseguia entender as atitudes de André, às vezes dizia ter namorada, em outras que saia com muitas pessoas, outras vezes que tinha uma noiva...E ela só queria conversar, conhecê-lo melhor, saber como podia se identificar tanto com um homem, ao menos, intelectualmente... Mas isso deixaria de ter importância para Ana pois ela afastava-se cada vez mais da dimensão de André. Sem dar-se conta, ela caminhava para uma dimensão em que somente conseguiria andar em paralelo com ele mas não poderia mais chegar fisicamente perto dele.
Ana não sabia explicar se era uma energia estranha, uma lei aplicada da física, o que afinal a impedia de encontrá-lo e assustou-se mais quando seu carro em velocidade moderada, pareceu ser puxado para trás o que fez com que explodisse o sistema de injeção eletrônica e ela rodasse na pista quase caindo do viaduto...Tentava aproximar-se explicar a ele o que estava acontecendo com ela, mas quanto mais ela tentava explicar, mais complicava e mais via André distanciar-se talvez achando-a uma desequilibrada ou coisa pior... Perdeu a conta de quantas vezes tentou aproximar-se dele e foi barrada na portaria. E o pior é que, cada vez que tentava aproximar-se dele, adoecia ou sofria acidentes ou perdas e inchava de forma descomunal. Ela não ligava isso ao fato de aproximar-se de André, imaginava ser mais uma seqüela de seu infeliz tratamento estético e, quanto mais tocava no assunto, por cartas e e-mails, mais André calava-se com ela.
Ingênua, Ana achava que não lhe davam recados e que ele não sabia de sua luta para reaproximar-se dele. Até que conseguiu que passassem um de seus telefonemas e ouviu, incrédula, que ele sabia de sua batalha para falar com ele. André chegou a dizer que Ana "atrapalhava a vida dele" e que não queria ouvi-la nunca mais.
Mas, será que ele não percebia que já não a estava ouvindo há muito tempo e que Ana era apenas uma vitima de algo muito estranho que o envolvia também? E que seria do interesse dos dois desvendarem isso, pois corriam o risco de viverem vidas paralelas, pseudo-vidas se não retornassem ao caminho em que estavam quando se encontraram pela primeira vez?
André parecia tão equivocado em relação à Ana que pensava ser ela a causadora dos transtornos que ele enfrentava no trabalho e na vida., Ele não via que, ao contrário do que ele pensava, era Ana com sua telepatia e sensibilidade que o ajudava a caminhar e, mesmo à distância, era Ana quem lhe dava forças....
Nem é preciso dizer que André já não irradiava aquela linda luz que tinha quando Ana o viu pela primeira vez, parecia agora outra pessoa, na verdade André também vivia uma vida paralela, a diferença é que ele parecia não enxergar isso, parecia conformado com qualquer caminho que se apresentava à frente dele, enquanto que Ana via claramente as dimensões em que viviam e não se conformava em viver uma vida alternativa, queria voltar ao seu caminho e estava disposta a desvendar isso até o fim.
Ana já não conseguia sequer senti-lo por perto quando o encontrou numa pagina de Internet. Imediatamente sentiu um enjôo e uma tontura incontroláveis e isso aconteceu com uma amiga de Ana que, muito curiosa, entrou na pagina dele. As duas deveriam ser meio sensitivas ou então era ele mesmo que estava irradiando essa imagem... Voltou a contatá-lo muitas vezes, enviava poesias, tentava aproximar-se mas até o sinal dele já era fraco. Ana procurava respostas e soluções em religiões e no estudo aprofundado da Física, mas ele parecia conformado em viver trocando o endereço de sua clínica e seguir um modelo de vida e conduta que nada tinham a ver com aquele homem iluminado que encantara Ana desde o primeiro momento.
Sem querer, Ana passava pelos mesmos lugares que ele. Quanto mais tentava afastar-se mais aproximava-se. Ao procurar apartamento para alugar, deparou-se com um bem atrás do prédio onde ele residia.. Ao divulgar sua mais recente publicação, (um livro de romances que ela jurou ser o último de sua carreira) procurou uma avenida que tinha várias estações de rádios e jornais e, muito perto, deparou-se com a casa dos pais dele numa cidade do interior. Se fosse uma estória normal, Ana poderia até arriscar-se a tocar a campainha, apresentar-se e acabar logo com o impasse, ao menos, poderia fazer novos amigos, mas esta é uma estória descabida.
Ana era uma intrusa dentro de sua própria vida. em sua área de atuação, outras pessoas anunciavam um projeto que ela já implantara há dez anos e neste impasse com André, havia outra pessoa sendo considerada o máximo, a mulher ideal para ele. E ela não perdera tempo, já havia feito amizade com a irmã e os amigos dele. E todos direta ou indiretamente já o estavam "vigiando" para que "andasse na linha"... Como poderia Ana chegar de outra dimensão e apresentar-se àquela família? Dizer o quanto estava sofrendo, querendo afastar-se mas cruzando os caminhos de André sem nunca conseguir encontrá-lo de verdade? Como explicar que, na verdade, tudo o que ela queria era reencontrá-lo para retornarem seus reais caminhos mesmo que fosse em separado? Como explicar que dependia dele manifestar-se, pois de nada adiantaria Ana tentar chegar à dimensão dele se ele não movia uma palha para encontrá-la??? Talvez até pensasse que ela era louca ou algo assim.
Mas ela, que vivia na pele a situação, sabia que nada tinha de irreal. Por algum fenômeno estranho, ela havia sido jogada em uma dimensão paralela a de André e só se encontrariam se ele enxergasse isso e viesse ao encontro dela, senão ela permaneceria apenas assistindo a vida de André acontecendo sem que ela pudesse participar nem mesmo como amiga... E o pior é que nem Ana nem André estavam caminhando em vidas produtivas, estavam simplesmente, vivendo sem produzirem nada juntos, sem sequer terem um contato físico e, ao menos, uma amizade.
Ana sabia que precisava fazer algo logo, pois o tempo estava esgotando-se e, em breve, teria que seguir sem André, definitivamente e isso implicaria para os dois uma vida sem nexo, sem direção certa. Ana achava que, se conseguisse reencontrar André, ao menos uma única vez, se pisassem o mesmo chão juntos novamente, eles conseguiriam retomar seu verdadeiro caminho mesmo que, depois disso, não se vissem mais. Mas Ana estava desgastada por tanta luta infrutífera, cansada, tentando recuperar a saúde. O que mais ela poderia fazer para que André acordasse, visse a seriedade do que viviam e viesse ao encontro dela para, juntos, mudarem essa situação?
Intrusa em sua própria vida - capítulo 2
Ana ainda estava atordoada pelo encontro que tivera naquela noite. Aliás, todos os encontros que vinha tendo eram atordoantes, sempre com pessoas que pareciam saídas de um filme de ficção científica mas este, desta noite, a marcara profundamente. Estava sentada numa praça deserta, pensando em como resolver o impasse de sua vida, quando avistou uma luz muito forte e intensa que parecia irradiar de uma árvore do outro lado da praça. Hipnotizada por esta luz, Ana levantou-se a caminhou até ela. Estranhamente, quanto mais caminhava, mais parecia afastar-se da luz e teve a sensação de caminhar por horas até que conseguiu, finalmente, encontrar a fonte que a irradiava. A luz, de um brilho e intensidade cegantes não vinha da árvore mas sim de um homem. De longe, pareceu que ele era louro mas, ao chegar bem perto, percebeu que era grisalho e a luz, de um amarelo muito forte refletia nos cabelos dele fazendo com que ele parecesse ser louro.
Ele não a olhou, apenas fez sinal para que se sentasse ao lado dele. Ela sentou-se no banco e ficou olhando-o por um tempo, em silêncio, esperando que ele falasse algo e ele, também em silêncio, parecia esperar que ela iniciasse a conversa... O silêncio pareceu durar horas até que Ana arriscou comentar:
- Avistei sua luz de longe... Vim para ver de onde vinha a luz e...
- Você vive perseguindo luzes, não é?
- Não sei se o termo é perseguir luzes, vejo sem querer e me encanto, eu acho.
- Ingenuidade a sua, nem todas as luzes são do bem. Às vezes, você se deixa levar por luzes que acredita serem boas, mas vêm de pessoas que te fazem muito mal, não é? (Ana acena positivamente). Você ainda tem muito a aprender... Está sofrendo muito por ser boa e altruísta. Tiraram tudo o que você tinha, não foi?
- Como sabe? (pausa) que pergunta ingênua a minha. Com esta sua luz, deve saber tudo o que acontece a sua volta...
- Viu, já está sendo ingênua novamente, como sabe que sou uma boa pessoa?
- Acredito que todos são bons, até que me façam algum mal.
- Por isso você está assim, perdida, sem casa para morar, sem rumo na vida... (pausa) eu vou te ajudar. Serei seu guardião até que possa seguir sozinha. Vou te dar força para caminhar, vou te ajudar a voltar para sua casa e a recuperar tudo o que perdeu, mas tem que ter paciência, fazer o que eu mandar e parar de acreditar em qualquer luz que vê pela frente, está combinado?
- Sim...
Conversaram por mais alguns minutos, o rapaz ensinou a Ana alguns rituais que deveria fazer. Ela não entendia muito mas anotou tudo com muita atenção e prometeu fazer tudo certinho. Ao se despedirem, Ana perguntou como faria para reencontrá-lo e ele respondeu que sempre estaria naquele local, quando Ana precisasse falar com ele poderia ir até aquele banco da praça e ele estaria lá esperando por ela, mas quando não pudesse ir até lá, bastaria pensar nele e ele já estaria com ela e repetiu:
- Sou seu guardião, vou te proteger sempre, mesmo que não venha me procurar...
Ana estava agitada e assustada demais para dormir. Passou a noite em claro pensando muito e, bem cedo, pegou seu carro e rumou de volta à sua casa. Ao chegar, percebeu desanimada que teria que refazer tudo, até a instalação elétrica que havia sido arrancada e doada. Ela havia doado tudo antes de sair andando pelo mundo e agora precisaria refazer tudo. Mas aquele estranho encontro com o homem de luz parecia ter dado a ela uma força tão descomunal que ela arregaçou as mangas e começou a reinstalar a fiação, sozinha, sem ajuda de ninguém. E, quando o dia terminava, ela já tinha conseguido fazer a fiação básica, instalar um chuveiro e limpar a sujeira da casa. Cansada, adormeceu no chão da sala sem cobertas sem sequer um colchão mas feliz por estar de volta ao seu lar...
No dia seguinte, animada, levantou-se e foi pedir religação de água e luz. Comprou um colchão, roupas de cama e algumas roupas novas. Imaginando que a casa estivesse totalmente vazia, comprou um fogareiro onde esquentava seu banho todos os dias e almoçava e jantava em restaurantes. Após uma semana nesta rotina, olhou fixamente para a porta da cozinha que permanecia trancada. Resolveu, finalmente, abri-la e percebeu abismada que o fogão e a geladeira continuavam ali. Havia esquecido totalmente deste detalhe mas lembrou-se que não os tinha doado por serem muito grandes e ninguém conseguir carregá-los. Que bom, ao menos, já tinha onde dormir e onde armazenar e cozinhar seus alimentos. O restante da mobília, ela arranjaria com o tempo. E, com a energia elétrica ja religada, finalmente pode tomar um bom e relaxante banho.
Os dias passaram, enquanto ela ía ajeitando-se e dando, novamente, vida à sua casa. Em algumas noites sonhava com seu guardião mas não pensava em procurá-lo tão cedo. A vida estava começando a ficar corrida novamente e ela já se sentia mais forte. Foi quando imaginou que já estava bem para procurar André e relatar tudo o que tinha visto e vivido, o quanto estava aprendendo. Ana achava que ele a entenderia e que poderiam, finalmente, concretizar o encontro que os levaria de volta aos seus verdadeiros caminhos... Finalmente, seus caminhos seguiriam o rumo certo, mas será que André entenderia? Será que ele pensava da mesma forma que Ana? E onde ela poderia encontrá-lo, se ele vivia mudando de endereços e ela já não tinha a mínima idéia de onde ele estaria estabelecido agora?
Intrusa em sua própria vida - capítulo 3
Ana foi a um telefone público e, dele, ligou para a nova clínica de André, a nova recepcionista passou a ela os horários de atendimento dele. Perguntou se ela queria agendar horário, mas Ana disse que iria pensar e depois ligaria novamente para agendar. Agradeceu, desligou. Ao virar-se para sair, deparou-se com uma senhora vestida com uma saia longa e lenço no cabelo, Ana quase gritou:
- A senhora me assustou!
- Desculpe, filha. Preciso te dizer algo. Esse rapaz... é o homem certo mas o momento é errado para vocês. Você saiu do seu tempo, e este rapaz continua no tempo dele. Não há conexão entre vocês. Se insistir você sofrerá muito. Neste momento há outro homem, ele já está em seu caminho faz tempo e você não está vendo. Vocês estão andando em paralelo... Você só precisa aceita-lo. Vocês vão caminhar juntos, olhar para o mesmo lado... Não é este André, é outro, não posso falar mais nada, lembre-se há outro homem em seu caminho, filha!
- Não quero saber de outro homem, quero entender porque o André se virou contar mim sem motivo.
- Ouça o que eu digo, filha. Há outro homem. É com ele que precisa seguir neste momento.
Ana desculpou-se e saiu apressada. Não queria saber de previsões, só queria olhar nos olhos de André e perguntar o motivo pelo qual ele se virou contra ela e, assim, numa terça-feira ensolarada, lá se foi Ana, toda animada, pensando que, finalmente, esse impasse se resolveria. Ao contrário das outras tentativas que fez, esta pareceu ser melhor sucedida, ao menos, a princípio. Ela passou em frente a clínica, não achou onde estacionar, deu uma volta pelo quarteirão. Ao parar em um dos muitos estacionamentos daquela rua, perguntou se poderia deixar o carro e depois decidir se pagaria por hora ou pela diária, afinal, estava tentando "fazer as pazes" com um amigo e não sabia se ele a receberia. Então dependia disso para...
Ana não perdia a mania de falar demais, o que interessava ao manobrista se ela tentava fazer as pazes com alguém ou se estava vivendo uma estória digna de ficção ou o que fosse, bastaria ter perguntado se poderia escolher o período de estacionamento na saída. Mas não podia, tinha que saber com antecedência se pagaria pela diária ou por hora. Resolveu procurar outro estacionamento. Quando estava dando a partida avistou o carro de André, percebeu ser ele porque ele parou ao vê-la, pareceu querer fugir ou algo assim e ela pode ver nitidamente a nuvem turva em cima do carro dele. Ana conseguia ver esta nuvem quando avistava alguém com uma grande carga de energia negativa. No fundo, Ana era uma sensitiva, por isso talvez, vivesse tantas cenas que, para outras pessoas, pareciam apenas um devaneio.
Resolveu seguir seu caminho e procurar outro estacionamento. Encontrou um, estacionou e, ao sair do carro, percebeu desanimada que precisaria caminhar por um chão de pedregulhos por uns vinte metros, depois atravessar a rua e, finalmente, chegar à clínica. Olhando para seus sapatos de salto altíssimos, por um momento, Ana pensou em desistir. Era muito "mico" para pagar só para rever alguém, só para tentar voltar a um caminho que já estava desviado demais. Mas resolveu insistir, caminhou pelos pedregulhos, atravessou a rua e entrou na clínica só porque a recepcionista era nova no local, não sabia da ordem de não deixá-la entrar.
Imediatamente a assistente dele já comentou:
- Quanto tempo!
- Muito tempo mesmo, mas consegui voltar. Está para nascer quem conseguirá cortar meu caminho e me fazer desistir. (pausa)
- Como vai a vida?
- Mal, mas continuo na luta.
A assistente afastou-se, ao mesmo tempo em que as recepcionistas começavam a encarar Ana como se fosse uma invasora de outro planeta. Naturalmente a assistente deve ter feito algum sinal para avisá-las do grave erro que cometeram ao deixá-la entrar no recinto. Neste momento, Ana sentiu a presença de André. Não podia vê-lo mas sentiu uma força estranha e pesada muito próxima dela. Ele havia entrado pela porta dos fundos e estava na sala dele, mas a assistente correu para dizer a Ana que ele tinha telefonado e que não iria.
Ana, sem pensar, disse:
- Então, quero falar com você.
- Comigo??? (fingiu surpresa a tão fiel assistente) - Pois bem, vamos falar aqui nesta sala, mas por favor, seja rápida, estou atolada de trabalho.
- Você deve lembrar-se que o procurei para tratar seqüelas que tive em um tratamento estético (a assistente acenou), nem tive continuidade no meu tratamento e nem tive mais chance de aproximar-me dele depois que marcamos um encontro. Só estou querendo me reaproximar, saber porque ele tomou esse nojo, esta raiva de mim. O que aconteceu conosco?
- Coitadinha, você não superou, não é?
- Não superei o quê?
- Você precisa entender que você viveu um momento com ele,...passou...não vai voltar... (a mulher falava com Ana como se falasse com uma desequilibrada ou com uma criança que deixou seu doce cair pelo bueiro e não poderia recuperá-lo. E mais, a assistente relatava detalhes sobre Ana que a faziam sentir-se frágil diante da frieza e ironia da assistente) - Você precisa aceitar isso, esquecer essa paixão obsessiva por ele, talvez deva procurar uma terapia...
- Terapia??? Mas o que está acontecendo aqui? Eu só quero entender como uma pessoa se despede de mim num clima de amizade dizendo que vai me ligar assim que voltar de viagem e nunca mais me contata e vira-se contra mim. Por mais bobagens que eu tenha dito ou feito tentando me reaproximar dele eu não posso ser tratada como se a louca fosse eu...
- O tempo todo as pessoas se encontram e se desencontram, é a vida, Maria. Você não tem idéia do quanto ele trabalha, ele não tem tempo para firmar relacionamento com ninguém....
- Eu não estou querendo um relacionamento, só quero entender...
- Maria, você vai me desculpar mas tenho muito o que fazer. Pode dizer o que você quer resumidamente?
- Quero que ele seja meu amigo. Que fale comigo como fala com qualquer outra pessoa, pare de fugir de mim como se eu fosse o diabo, eu sou do bem.
- Quantos amigos você tem?
- Muitos...
-Então, que diferença faz um a mais ou a menos? Deixa ele seguir a vida sem você. (dizendo isso a assistente foi caminhando para a saída, obrigando Ana a sair também)
- Faça-me um favor, diga a ele que estive aqui e...
- Maria, vai embora! (a assistente afirmou isso e já se dirigiu às recepcionistas dando ordens e tornando a saída de Ana algo muito mais humilhante do que precisaria ser)
Ana saiu arrasada. Isso só poderia ser um pesadelo. Além das cenas descabidas que estava vivendo, aquela assistente insistia em chamá-la por Maria e este era o nome de sua mãe, não o dela... E ainda havia outro detalhe intrigante. A assistente nem sequer mencionara a existência da mulher que André havia estampado na Internet como sendo sua escolhida e a qual todos estavam celebrando como a mulher ideal para ele. A princípio, Ana imaginou que a assistente não soubesse desta mulher pelo fato dela viver muito longe, em outro país, e ele sair com outras pessoas no Brasil. Depois pensou que, pela forma íntima como a assistente referia-se a ele, poderiam ter um caso e ele, logicamente, não falaria a respeito de outras com ela. Mas, se fosse isso, como ela parecia saber tantos detalhes de Ana? Será que ele protegia a privacidade de todos os casos dele e não era capaz de proteger a privacidade de uma paciente que acreditava nele como médico, que o via e o admirava como um homem iluminado e, talvez por ingenuidade, tenha se aberto mais do que devia? Seria, André, somente um grande cafajeste, incapaz de entender a nobreza dos sentimentos de Ana?
Ela precisava saber a verdade e decidiu procurá-lo no apartamento dele. Sabia que poderia ser, novamente, mal interpretada mas precisava esclarecer isso de uma vez. Precisava olhar André nos olhos e perguntar a ele o porquê de tantos desencontros, por que tanta recusa em vê-la novamente. Por que deixá-la ser pisoteada em suas portarias sem sequer olhá-la, sem permitir uma aproximação amigável...
Tinha quase certeza de que ele ainda morava no mesmo lugar e decidiu procurá-lo na residência dele. Mas, como seria recebida? O que poderia dizer a ele? Como explicar a ele o que não tem explicação? Como dizer a grande importância que Ana dava a um reencontro entre eles? E, afinal, qual seria o motivo para André recusar-se tanto a vê-la novamente?
Intrusa em sua própria vida - capítulo 4
Ana produziu-se toda, tomando o cuidado de disfarçar sua aparência para não ser reconhecida no prédio de André. Afinal, por mais importância que ela julgasse ter seu reencontro com André, ela precisava levar em conta que ela era uma escritora bastante conhecida e respeitada, não podia sujeitar-se a cenas humilhantes em portarias, não podia deixar que cenas como a que viveu com a assistente dele e tantas outras cenas humilhantes atrapalhassem sua carreira que já andava ameaçada por tantos acontecimentos descabidos.
A princípio, o porteiro a tratou com uma certa aspereza, sem sequer abrir o portão mas deve tê-la reconhecido ou então a achou bonita ou sabe-se lá por que, mas ao olhá-la melhor, ele mudou sua atitude, com muita doçura falou que ela poderia entrar, já acionando o portão e desdobrou-se em gentilezas ao explicar que o Dr. André não estava, costumava chegar bem mais tarde, lá pelas dez da noite. Ana perguntou se poderia aguardar mas decidiu esperar no carro, onde permaneceu até umas nove da noite. Dirigiu-se novamente à portaria e foi novamente bem recebida pelo porteiro que disse que o doutor ainda não tinha chegado. Ana perguntou se havia uma sala de espera no prédio, ele respondeu que só havia o saguão.
- Eu posso aguardar lá? Estou sentindo muito frio....
- Pode sim, é só entrar por ali.
- Obrigada. Pode fazer-me um favor? (o porteiro acenou afirmativamente) Eu não sei como ele irá me receber, na verdade, não sei nem se ele irá me receber, então, por favor, avise-me quando ele chegar e não diga nada a ele até que eu esteja próxima do interfone, certo?
- Sim senhora.
Ana, entrou no saguão do prédio e sentou-se. Continuava a sentir muito frio e, talvez não fosse pela temperatura do local, o frio que sentia deveria ser pela situação que estava vivendo. Um senhor passou por ela e a cumprimentou calorosamente como se a conhecesse. Ana achou que ele a tinha confundido com outra pessoa ou, quem sabe, tivesse lido algum livro de autoria dela, mas isso já não importava, o homem já estava entrando no elevador e Ana já estava, novamente, perdida em seus pensamentos. Sentia um forte enjôo e, por muitas vezes, pensou em sair dali e esquecer este triste episódio, mas acabou aguardando até umas dez e meia da noite, quando alguém a avisou que o porteiro a estava chamando. E ela voltou à portaria.
- O doutor chegou. Vou interfonar e avisar que a senhora está aqui.
- Ok. (Ana aguardou em silêncio enquanto o porteiro interfonava).
- Doutor, está aqui uma senhora chamada Ana e... (o porteiro calou-se, enquanto Ana podia ouvir os gritos do "doutor" do outro lado do interfone, ao voltar a falar com ela, o porteiro estava encabulado) - Desculpe, acho que a briga deve ter sido feia com os senhores. Ele disse que não conhece a senhora, que a senhora não é bem-vinda na casa dele e não devo deixar a senhora entrar nem na portaria. Acho que nem vou falar que deixei a senhora entrar no saguão, senão até perco o emprego. (pausa tensa. Ana suspirou, mas nada disse, o porteiro continuou falando) - Desculpe me meter mas, pelo que estou vendo, ele parece estar dormindo, não vê a senhora como deveria e insistir vai ser pior. Eu sou só um porteiro mas tenho experiência na vida, com todo respeito, a senhora é uma mulher muito bonita, nem que fosse louca, pegasse no pé dele, fizesse cena, fosse o que fosse, não merecia esse tratamento. Se ele está agindo assim, é melhor deixar ele se virar sozinho e, quando ele acordar, se não for tarde demais, ele procura a senhora...
Ana, cabisbaixa, sorriu. Não pode deixar de pensar que aquele porteiro, na sua simplicidade, parecia mais inteligente e culto do que o doutor que só sabia dar coices. Como dizia o avô de Ana, um senhor italiano que vivia dizendo ditados, "os burros também fazem cursos e tiram diplomas". Ela nada comentou, apenas disse:
- Desculpe por esta cena deprimente e por eu ter feito o senhor ouvir tantas bobagens dele.
- A senhora não tem que se desculpar. Tá tudo bem, eu entendi a situação. (pausa) Eu quero pedir para a senhora não falar nada pro doutor do que eu disse. Só falei porque quero ajudar e acho uma judiação fazer uma mulher bonita como a senhora esperar tanto tempo, neste tempo frio, para reagir dessa forma, sem nem receber a senhora, nem ouvir o que a senhora tem a dizer...
- Não se preocupe, se eu ainda falar com o "doutor" não tocarei neste assunto... Tudo de bom para o senhor, obrigada.
- A senhora vai ver, ele ainda vai acordar e procurar a senhora.
Ana apenas esboçou um sorriso e saiu, pensando que não havia mais tempo para André dormir. Se não acordasse naquele momento, não haveria amanhã nem para ele nem para muita gente que dependia de uma sintonia entre eles, não era sexo, não era carência, ela só queria voltar a ter sintonia com André e, a partir daí, caminhar pela trilha certa, construindo um mundo melhor, juntos ou separados, ela só queria estar em harmonia com ele...
Ana entrou no carro e partiu, de forma inerte, não chorava, não tinha nenhuma reação, apenas dirigia lenta e mecanicamente, tentando entender esse ódio, essa repulsa que André estava demonstrando por ela. Não conseguia lembrar-se do que poderia ter feito para ele agir dessa forma. talvez tenha se aberto demais, escrito muito tentando explicar-se, mas por mais que tivesse errado, por que ele recusava-se a olhar nos olhos dela e falar com ela de forma civilizada? Será que ele a confundia com outra pessoa? Ou será que sentia mesmo tanto ódio e repulsa por ela e, se fosse isso, qual seria o motivo? E que sensação triste saber que André a tratava como se ela tivesse uma doença contagiosa e não pudesse sequer pisar no setor que ele dominava, como se fosse contagiá-lo...
Não se conformou, escreveu vários e-mails a André, tentando explicar-se, pensando que ele a entenderia. Mas ele acabou respondendo, de forma muito estúpida, também chamando-a por Maria, exatamente como a assistente dele a chamara e dizendo que o comportamento dela era insano e, se não parasse de assediá-lo, iria processá-la. Ironicamente, Ana, que poderia processá-lo como paciente havia, há tempos, rasgado toda a documentação que tinha, por entender que um processo judicial entre eles destruiria qualquer possibilidade de conciliação e agora, se ele realmente movesse um processo contra ela, pareceria a todos que ela era apenas uma louca assediando-o. Ela já não tinha prova alguma contra ele...
Realmente, ela precisava deixar de ser tão ingênua e acreditar tanto na bondade de todos que cruzavam o caminho dela. Precisava aprender a ter mais malícia, a se preservar mais, a não acreditar em qualquer luz que via pela frente... Finalmente entendia o que seu guardião havia dito, mas doía muito entender isso e ver que estava apostando demais em alguém incapaz de entende-la, de sequer, enxergá-la.
Naquela noite, Ana chorou muito chamando por seu guardião e ele veio em um sonho. Dizia a Ana que deveria esquecer o passado. Aquele rapaz não se lembrava dela, não entendia o que ela queria dele. Entre eles deveria ter acontecido um encontro muito forte e importante para os dois e para o mundo, mas este encontro nunca ocorreu. Ana, por ser sensitiva, conseguia enxergar esta importância mas André não via desta forma. E Ana precisava ver que não havia volta. E mais, deveria enxergar que ela era alguém especial, um ser que veio para mudar o curso da humanidade, completar a missão que seu pai não conseguira realizar. Se ela teria um homem ao seu lado era só um detalhe, solteira ou casada, amada ou odiada, Ana teria que se fortalecer e continuar a grande missão que veio cumprir.
Ana acordou suando muito, levantou-se para beber água e, ao descer a escada, pode ver nitidamente a imagem de seu pai já falecido. Era isso, as coisas começavam a clarear na mente de Ana. Sempre tinha sido altruísta e preocupada com o bem estar da humanidade mas, só agora, ela percebia a seriedade dessas suas atitudes e o quanto ela ainda teria que lutar, levantando a bandeira do bem. Ela precisava liderar uma grande mudança, transformar o mundo materialista em altruísta e construir um futuro mais justo e digno para todos em igualdade. Mas isso não a impedia de ser amada. Já seria pedir muito que ela se sujeitasse a tantas privações e até humilhações em busca da construção de um mundo e de uma humanidade mais justos e equilibrados, será possível que, além disso, ainda teria que viver na solidão porque parecia não haver um homem suficientemente forte e altruísta para seguir ao lado dela?
Foi aí que resolveu encarar a imagem que se materializava à sua frente e perguntar:
- Por que fez isso comigo, pai? Por que, não conseguindo cumprir sua missão, jogou toda a responsabilidade em cima de mim e partiu para outra dimensão? Por que, meu pai, por que?
Intrusa em sua própria vida - capítulo 5
A imagem materializada, em alguns momentos, tornava-se mais nítida, em outros momentos parecia mais turva, mas o tempo todo, Ana percebia que seu pai chorava muito e só conseguia repetir:
- Eu errei... eu errei...
Ana ainda indagou um pouco até que a imagem sumiu e ela se viu chorando muito. Remetida ao passado, pode se ver ainda criança muito pequena, com seus três anos de idade, quando seu pai começou a falar sobre isso com ela. Ele dizia apenas que ela era a salvadora dele, que ele tinha tido um aviso que teria uma filha que seria sua salvadora. Ana cresceu ouvindo seu pai dizer isso mas não levava a sério, até porque ele nunca explicava de que forma ela o salvaria e, afinal, do quê ela deveria salva-lo. Em alguns momentos ele a procurava, tentava ensinar a ela uma técnica que ele chamava de "reativação de chacras", mas ela não queria aprender isso e não sabia para quê lhe serviria. E este parecia ser o único treinamento que seu pai lhe queria passar.
O tempo passou, Ana cresceu, seu pai faleceu e somente após a morte dele, fazendo um curso de numerologia, ela descobriu que seu pai era alguém especial. Tinha os três números mestres, coisa rara, quase impossível, na numerologia. Era um ser iluminado que veio à terra para ser um grande líder político, passar pela presidência da republica e, ao encerrar carreira política, tornar-se um líder espiritual. Isso transformaria o planeta e tornaria o mundo um lugar maravilhoso de se viver, um mundo altruísta, com uma divisão justa, pessoas conscientes de suas funções, todos ajudando a todos, enfim, um verdadeiro paraíso. Acontece que o pai de Ana falhou, casou-se com a pessoa errada, mudou totalmente seu caminho e acabou levando uma vida altruísta mas no anonimato e muito longe de mudar o rumo da humanidade. Ao nascer, Ana já foi designada a dar continuidade à esta missão mas, sem preparação, sem orientação e sempre vítima de tantas maldades e desvios Ana parecia condenada a também abandonar a missão e deixar que a humanidade fosse extinta sem sequer uma tentativa de mudança.
Enquanto Ana lutava para reequilibrar-se e, quem sabe, retomar a esta árdua missão, a humanidade caminhava como um barco à deriva. Fenômenos climáticos, cada vez mais descontrolados e freqüentes deixavam grandes populações sem casa e sem condições mínimas de sobrevivência e tornava os recursos naturais cada vez mais escassos e poluídos. Os líderes políticos, cada vez mais gananciosos, não pareciam dispostos a nada que beneficiasse a todos e sim a uma minoria privilegiada. Alguns poucos políticos que resolviam fazer algo pela população eram logo afastados de seus cargos, as religiões também pareciam tomadas pela ganância e pouco ou nada faziam de concreto e, quando faziam, era sempre voltado a auto promoção. O mesmo acontecia com as emissoras de radio e tv que só divulgavam o que poderia ser de interesse da minoria, ao povo era negada qualquer informação que lhe fizesse pensar e acordar. e a população vivia de forma anestesiada diante de muitos fatos.
A humanidade parecia condenada a andar em círculos sem nunca chegar a lugar algum. Há muitos anos já não se criava nada de novo, as músicas eram regravadas, programas e novelas de tv eram reprisados ou regravados, as poucas produções criadas naquele momento registravam o desencontro de André e Ana mas só ela percebia isso e já não tinha mais nenhuma importância para ela se André entendia ou não a importância que um simples encontro tinha para eles e para a humanidade.
Ana já começava a achar que André era apenas um fraco que, diante das primeiras dificuldades, ao invés de insistir em encontrar-se com Ana, preferiu viajar para outro país e envolver-se com outra pessoa, desviando mais ainda seus caminhos. E, talvez, fosse bom que ele assumisse de vez seu namoro e se casasse com aquela mulher, assim, seguiria, conscientemente, os passos do pai de Ana, casaria também com a pessoa errada e, com isso, se desviaria totalmente de seu caminho. Poderia transferir sua missão a algum filho dele e, com isso, livrar Ana dessa maldita sina que seu pai havia imposto a ela. Em seguida, Ana sentia pena de André e se arrependia por pensar nele com rancor. Às vezes, ela ainda sentia vontade de procurar André e conversar amigavelmente mas, depois de tantas humilhações, procurá-lo para quê?
Em meio a este clima, Ana reencontrou um homem que marcara muito seu passado. Não se pode dizer que esta marca tenha sido positiva, na verdade, por um mal entendido da parte de Ana, que era apenas uma adolescente quando o conheceu, guardara uma imagem distorcida deste homem. Mas, ao reencontrá-lo, esta imagem se desfez. Logo, Ana notou que ele irradiava uma linda luz azul celeste mas, desta vez, Ana nem teve tempo ou disposição para encantar-se com a luz dele, pois o contato físico falou mais alto. Ficaram muito próximos ao ponto dele tocá-la, com uma força e um domínio eletrizantes. Com isso, Ana sentiu imediatamente uma atração tão forte que não se controlou, sua primeira reação foi fugir dele, achando que era somente uma atração passageira desencadeada pelo grande choque do reencontro e pelo toque sensual e decidido dele e que logo passaria.
Na verdade, este reencontro havia deixado Ana totalmente perturbada, não só pela grande atração que passou a sentir por este homem que há tantos anos não via mas porque, a partir deste reencontro, Ana começou a perceber que era esse o homem que ela tanto procurava, ao menos, neste momento. Lembrou-se de detalhes e entendeu que, durante muitos anos, caminhou em paralelo com ele, participando dos mesmos eventos, lançando livros nas mesmas datas e locais mas, sempre separados pelo público, sem encontrá-lo de perto. E, talvez, este grande desencontro no universo de Ana fosse muito além de André, fosse esse desejo frenético que já estava sentindo e este amor louco que estava começando a sentir por este homem surgido de repente do passado de Ana. Sim, era isso. Era esse o homem da vida de Ana. Ela, finalmente, encontrara o homem que tanto procurava, ao menos, era o que estava pensando agora. Então ela decidiu reencontrá-lo e dizer tudo isso a ele.
Mas reencontrá-lo não foi fácil, aliás, reencontrá-lo até que foi bem fácil, difícil foi explicar-se com ele. Ele também pareceu muito atraído por Ana, mas não conseguiam se entender. Parecia, novamente, haver um escudo invisível entre os dois, Ana dizia uma coisa, ele entendia outra e vice-versa. Para completar, ele era uma figura pública, Ana também era bastante conhecida como escritora e ela havia dito em algumas entrevistas que não gostava dele. Ele, ao ler as entrevistas, magoou-se, com razão. O ambiente não ajudava pois não havia privacidade para conversarem e, depois de três tentativas, Ana desistiu, ao menos, até conseguir falar com seu guardião.
Não queria correr o risco de reviver a estória que enfrentou por causa de André. Não queria mais ser humilhada sem motivos aparentes. Queria muito se entender com este homem que estava mexendo tanto com ela, mas não se deixaria humilhar novamente, até porque, diante de suas tentativas de aproximação, ele também já parecia muito senhor da situação e já havia ocorrido algumas cenas em que ela se viu quase implorando pela atenção dele. Antes que fosse, novamente pisoteada como o foi nas portarias do insensível André, Ana resolveu parar de contatar sua recente paixão e procurar por seu guardião. Ele saberia acalmá-la e dizer como deveria proceder.
Ana dormiu indecisa, não sabia se viajaria mesmo por tantos quilômetros só para rever seu guardião, afinal, ele havia dito que bastaria chamar por ele e ele estaria com ela. Mas ela já não o sentia tão próximo dela e precisava mesmo revê-lo. Precisava dele para se fortalecer novamente pois estava se sentindo muito fraca e sozinha. Acordou decidida pela viagem. Pegou uma muda de roupa e saiu em direção à estrada sem sequer levar objetos pessoais, nada importava além desse reencontro com seu guardião.
O caminho parecia mais longo do que antes, quanto mais dirigia mais parecia distante da pequena cidade onde seu guardião vivia.. Acelerava muito, 120, 140 Km e nada parecia diminuir a distância. Exausta, pensava em parar e desistir da viagem mas insistia, acelerava mais e mais, teria que chegar um dia...
Era noite quando conseguiu chegar a cidade, deixou seu carro e seus pertences no hotel e caminhou a pé até a praça onde deveria encontrá-lo. A medida em que andava seu coração acelerava e ela pensava, feliz, que ele a estaria esperando, a acalmaria e lhe daria o rumo que ela tanto esperava. Mas, ao chegar ao local onde deveria encontrá-lo, não o avistou. Sentou-se, fechou os olhos e chamou por ele mas ele não se manifestou. Aos poucos, Ana foi sentindo-se mais fraca, tonta e com uma dor insuportável no estômago. Parecia que iria explodir a qualquer momento. A dor foi se tornando mais forte, Ana suava muito e via tudo girando a sua volta. Mais alguns segundos e ela caía desmaiada... Este parecia ser o fim de Ana, caída e desfalecida naquela imensa e deserta praça... Seu guardião não cumprira a sua promessa, não a esperava, não a estava protegendo mais e Ana estava agonizando sozinha e abandonada numa cidade que mal conhecia...
Intrusa em sua própria vida - capítulo 6
Ana perdeu a noção do tempo, não saberia dizer por quanto tempo ficou ali desfalecida. Mas, assim que acordou, pode ver a mesma luz que vira anteriormente em seu guardião. A luz parecia vir de muito longe e ela sentia-se fraca e dolorida para ir até a luz. Mesmo assim, levantou-se com dificuldade e caminhou em direção a luz. Novamente parecia que nunca chegaria e, por muitas vezes, pensou em desistir mas continuou caminhando. Seu estômago continuava doendo, ela continuava com muita tontura e com a sensação de que iria explodir a qualquer momento. Mas seguia andando, certa de que encontraria seu guardião tão logo encontrasse o foco de luz. Avistou uma casa toda branca, de onde a luz parecia originar-se. Entrou pela porta que já estava aberta e, de imediato, avistou a grande fotografia na parede. Era seu guardião, estava lindo e irradiava aquela luz fantástica. Aproximou-se e apenas disse:
- Estou muito mal, meu estômago dói demais, sinto tontura e acho que vou explodir a qualquer momento...
Ele pareceu sair da foto e vir ao encontro de Ana, encostou sua testa na dela e, em alguns segundos, ela parecia renovada, Não sentia mais dor alguma e parecia novamente forte. Abriu os olhos mas ele não estava com ela, continuava na foto e a luz já não irradiava mais. Assustou-se ao ouvir uma voz de mulher...
- Como entrou aqui?
- Desculpe-me, senhora, eu vim seguindo a luz.
- Luz? Que luz? (pausa) Este é meu filho... Você o conheceu?
- Sim, há alguns meses...
- Meses? Impossível, ele morreu há quase seis anos.
- O quê?!. (Ana pensou em retrucar, mas apenas completou) Desculpe, eu me confundi, queria dizer que o conheci há alguns anos... Me desculpe mesmo ter entrado sem avisar, eu... vou embora. (disse, já dirigindo-se a porta)
- Não quer ficar, tomar um chá? É sempre bom conhecer os amigos de meu filho.
- Eu volto outro dia, eu... adeus.
Ana saiu caminhando atônita. Recusava-se a pensar que pudesse ser somente uma grande alucinação sua. Não precisou raciocinar muito para entender o que estava ocorrendo com ela. Por muitos desvios que percorreu, acabou perdida numa dimensão intermediária. Ela se lembrava das pessoas mas as pessoas não se lembravam dela. As estórias não aconteciam de forma equilibrada, ela vivia as cenas sozinha enquanto as outras pessoas viviam em paralelo, quando ela tentava aproximar-se e comentar o que ocorria, pensavam que ela era uma louca. Mas, na verdade, as estórias existiam, o que não estava existindo era o encontro simultâneo entre ela e as pessoas que deveriam relacionar-se com ela.
Não se culparia por isso nem imaginaria ser um desequilíbrio. Sabia que a culpa era de seu pai que, sabendo da grande missão que tinha, havia se deixado levar pelo caminho mais fácil. A culpa era também de André que havia se desviado dela, sem sequer tentar retornar ao caminho que deveriam seguir. Ele nunca entendera que Ana apenas queria reencontrá-lo para retornar ao caminho certo, ele viu apenas como assédio, viu com olhos materiais o que só deveria enxergar com olhos emocionais, numa visão quântica. Enfim, se havia culpados, certamente, Ana não estava incluída entre eles. Não era justo que ela pagasse sozinha por isso.
Ana começava a entender que os homens que se interessavam por ela não estavam preocupados com o destino da humanidade. Alguns, por sentirem-se muito atraídos por ela, no início demonstravam grande preocupação mas, quando percebiam que ela levava isso muito a sério, eles se distanciavam. E estava na hora de Ana escolher: Se queria mesmo ser a grande salvadora da humanidade, teria que seguir sozinha ou então esperar por muito tempo até que surgisse um verdadeiro super-herói para acompanha-la. Se quisesse amar e ser amada, teria que aceitar as limitações de seus pretendentes e viver seu caso de amor entre quatro paredes, sem querer protagonizar esta missão impossível de salvar o planeta.
Ana ainda estava indecisa, não sabia mesmo se queria seguir a missão ou apenas entregar-se a um amor louco e excitante. Naquele momento, ela estava mais disposta ao amor do que à missão. Se a humanidade caminhava para sua extinção, era de responsabilidade de todos buscar mudanças e não somente dela. Continuaria escrevendo, publicando seus romances e poemas e tentando conscientizar as pessoas da forma como conhecia, ou seja, liricamente. Se isso surtiria efeito, só o tempo, por mais efêmero e até inexistente que seja, poderia mostrar.
Ela continuaria caminhando, tentando encontrar as pessoas na dimensão correta. Tentaria procurar sua recente paixão mais uma vez, até mesmo para que ele não ficasse achando que ela era apenas uma desequilibrada incapaz de explicar seus sentimentos. Para dizer a ele que, por mais que ela tivesse dito que não gostava dele no passado, agora, no presente, ela o estava desejando muito e mereciam se dar ao menos uma chance de entendimento. Enfim, ela o procuraria e tentaria se explicar. Se não conseguisse entender-se com ele, continuaria caminhando, acabaria encontrando alguém que se identificasse com ela e com quem pudesse caminhar, olhando para a mesma direção.. Como aquela mulher havia dito a Ana, havia um homem no caminho dela, na verdade, aquela mulher havia dito que havia outro André na vida de Ana e ela precisava encontrá-lo, para seguirem juntos e olhando para o mesmo lado. Ao menos foi isso que a mulher lhe disse e Ana estava disposta a continuar sua busca por André ou fosse quem fosse, o homem da sua vida... Talvez até pudesse encontrar-se com seu guardião alguns anos antes dele falecer. Isso seria o máximo.
E perfeitamente possível, afinal, esta é a essência da Física Quântica. A Ciência das possibilidades....
FIM (ou será apenas o começo?)
Conto 3
O apartamento da praia (em um capitulo)
By Lou de Olivier
Era final do ano e Mateus apareceu dizendo que estava comprando um apartamento em Santos. Como sua esposa, Cinira, nunca aprovava as decisões dele e brigaram em outra oportunidade, quando ele comprara um apartamento no Guarujá. Desta vez ele tinha combinado com o proprietário um período de experiência. Alugara o apto pelos três meses de ferias. Se a família se habituasse, ele compraria o apto..
Na verdade, era uma tentativa de tirar sua filha Ana do colégio das freiras, do qual ela tanto reclamava e também de iniciar uma separação da sua esposa. Era visível que Mateus estava saturado daquele casamento enlouquecido que vivia. E a filha dava a maior forca, achava desde os seus primeiros anos de vida que eles nada tinham a ver um com o outro e deveriam mesmo se separar. Alias, se dependesse da filha, já teriam se separado há muito tempo...
O apartamento era lindíssimo, com luzes indiretas, muito amplo e Mateus o mobiliou com muito bom gosto. Era um prédio pequeno com apenas três andares e dois aptos por andar, ou seja, tinham apenas cinco vizinhos no prédio, alem da família. Tudo estaria ótimo se o prédio não fosse azarado e o apartamento literalmente mal assombrado, pelo menos era o que comentavam pelos arredores.
Assombrado ou não, a verdade é que havia água pela cidade toda, menos naquele prédio. Sabe-se lá porque, esse era o único prédio que nunca tinha água da rua e na caixa havia uma a água muito suja que mal dava para tomar banho.
Para beber, eles não se incomodavam, já que não tinham costume de beber a água mesmo, só bebiam refrigerantes. Mas para cozinhar era um suplicio. Tinham que andar pela cidade toda procurando água mineral e, na época, em plena temporada de férias, era bem difícil achar.
Um calor infernal e, para completar, as pessoas tinham mania de roubar esteiras naquela região da praia. Cansaram de ir ao mar e, na volta não acharem nem sombra de seus pertences. Começaram então a ir somente de chinelos e já prontos para o mergulho, mas ainda assim, roubavam seus chinelos.
Num fim de semana, Ana foi ao mar com seu pai e enterraram os chinelos para que não roubassem. Acontece que empolgaram-se no mar e, quando saíram, nem eles se lembravam de onde os enterraram. Resultado, fritaram os pés na areia quente.
Mateus avistou um rapaz andando de bicicleta e ofereceu um bom dinheiro pelos chinelos dele. Claro que ele aceitou, já que a oferta cobriria o preço de dois pares dos chinelos que ele usava. O rapaz voltou de bicicleta, Mateus com os chinelos dele que eram dois números menores que o de Mateus e Ana montada nas costas do pai. Felizmente o apartamento ficava a dois quarteirões da praia e logo chegaram...
Apesar dos contratempos, tudo poderia ser contornado, Mateus os visitava a cada quinze dias e divertiam-se muito, e com as visitas espaçadas, cessaram-se as brigas com Cinira. Encontraram uma distribuidora de água mineral e, ao limparem a caixa do prédio, conseguiram ao menos uma água boa para banho. Enfim as coisas pareciam se ajeitar aos poucos. Mas Ana e a mãe passavam muito mal lá. quando não era uma era a outra que machucava-se ou tinha alguma indisposição e tinham que correr para o pronto-socorro da região.
Certa vez, Cinira tropeçou e machucou o pé e, apesar de curativos e cuidados, cada vez mais o pé inchava e inflamava.. Ana foi colar um prato de vidro trabalhado que quebrou na mudança, o prato escapou, bateu no seu polegar e quase perdeu o dedo. Mas o pior mesmo era o apartamento. havia algo de estranho nele e Ana notou isso desde o primeiro dia em que la entrou. Mas nao sabia definir direito o que era.
Depois de uns quinze dias que estavam lá, Ana almocou e foi deitar-se um pouco. Estava muito cansada pelas peripécias na praia. Deitou-se em sua cama e tentava cochilar quando sentiu muito frio, tanto que chegava a tremer toda. Mas isso não fazia sentido porque estava muito calor, ate via o sol brilhando muito forte apesar da janela fechada, dava para ver seus reflexos. Exatamente pela janela estar fechada é que achou estranho demais quando a enorme cortina salmão começou a esvoaçar, enquanto o frio aumentava muito. De dentro da cortina viu surgir uma mulher clara de cabelos negros que flutuava no ar usando uma camisola no mesmo tom da cortina. Ela foi se aproximando de Ana, enquanto o frio aumentava ao ponto de congelá-la. Quando chegou bem Próxima, Ana pode ver lagrimas em seus olhos e notou que ela tinha um grande furo no rosto, de onde escorria muito sangue.
Ana queria gritar, fugir, mas estava petrificada. E só conseguiu mover-se quando a mulher sumiu de repente e Ana, olhando para a cortina que estava imóvel, percebeu que a mulher não deveria ser desta dimensão. Só então conseguiu levantar e correr muito. Na sala sua mãe conversava com um casal morador de um dos apartamentos e, com os quais tinha feito amizade. Ana entrou correndo e disse rapidamente:
- Mãe, , preciso falar urgente com você.
- Aninha, não cumprimenta as visitas?
- Desculpem. Boa tarde...
- Boa tarde. - eles responderam.
- Mãe, é urgente.
- Não vê que estou ocupada? Desculpem, minha filha é meio mal educada...
- Preciso dizer o que vi no meu quarto.
- Como assim, o que viu? - perguntou o senhor apreensivo.
- Uma mulher, ela flutuava no ar como as cortinas e...
- Ah, essa não. Olha, vocês nos desculpem. Meu marido é neurótico de guerra e minha filha acho que herdou essas alucinações dele...
- Eu vi, mãe, eu juro!
- Eu me interesso em saber disso. Sou espírita, sabe? - disse o homem - o que mais você viu, menina?
- Ela chorava e tinha um furo na cabeça ou no rosto, sei lá. Só sei que escorria muito sangue do furo. Acho que queria me dizer algo, mas não conseguiu...
- Minha nossa senhora!!! É a Claudia! - disse a moca que o acompanhava.. - Onde é seu quarto?
Ana levou-os ate seu quarto e eles disseram que era lá mesmo o quarto do casal. Eram felizes, tinham uma filhinha linda e tudo parecia maravilhoso, quando ela engravidou novamente, mas o filho não era do marido. Era do amante que ela mantinha há tempos. Ela, com medo que o marido descobrisse, trancou-se no quarto e suicidou-se. Por isso o marido estava desesperado para vender o apartamento. para fugir das lembranças...
Ana, naquele momento não tinha certeza de que aquela mulher tivesse se suicidado. Parecia mais que alguém a tinha matado e feito parecer um suicídio. Talvez fosse isso que ela tinha tentado lhe dizer. Mas Ana nada comentou. Já vivia sendo chamada de louca, só faltava se meter num caso policial que já estava arquivado. Ate porque ela não tinha certeza,
Mesmo depois dessa aparição, continuaram no apartamento. Mas continuavam adoecendo muito e sofrendo acidentes quase diariamente. Cinira continuava com o pé infeccionando, e uma noite a tv explodiu. Cinira estava ligando o aparelho como sempre fazia, viciada em novelas, não perdia um só capitulo, assim que ligou a tv na tomada, de repente, ouviu-se um estrondo enorme e as luzes de todo o prédio se apagaram.
Os vizinhos todos apareceram assustados. O prédio era traumatizado pelo suicídio de Claudia e acharam que novamente fosse som de tiro e alguém teria cometido outro crime. Um dos vizinhos desceu com uma lanterna e, depois de verificarem que estavam todos bem, somente um grande susto, foi arrumar a eletricidade do prédio. Foi ai que a família de Ana começou a cogitar uma volta a São Paulo.
Ana não queria. Estava muito feliz por lá, já estava ate matriculada num colégio santista que ela amava. Não tinha regras rígidas, era misto e ela ate podia usar mini saia.. Claro que, escondido dos seus pais que não permitiam que usasse roupas curtas. Apesar dos seus dez anos de idade, Ana já tinha um corpo bem definido e suas roliças pernas chamavam muito a atenção. Seus pais exigiam que usasse roupas que cobrissem suas pernas, então, ela erguia a saia e prendia no cinto do uniforme quando chegava ao colégio e soltava quando descia da perua e entrava de novo no seu prédio. Enfim, ela já estava adaptada à nova vida e achava aquela escola uma maravilha, era melhor do que no colégio das freiras enlouquecidas que, quando pegavam alguma aluna de mini saia rasgavam a barra na frente de todo mundo. Tinha umas meninas que viviam de saias rasgadas na barra, servindo de piada para o resto do colégio.
Alem do colégio, elagostava muito dos mergulhos na praia, do cachorro quente do "cachorrão", um rapaz muito simpático que vendia o cachorro quente mais gostoso que já saboreara. E ate lhe dava uns de cortesia, depois que Ana e seu pai o defenderam de uns fiscais que tomaram sua mercadoria e estavam batendo nele.
Enfim, Ana estava tão feliz na sua nova vida que não se importava com aparições nem acontecimentos do alem... Mas, numa tarde, desceu da perua e viu um caminhão de mudanças na porta do prédio. Não precisou raciocinar para saber que era o fim da sua alegria. Colocou seu material dentro de um saco de roupas sujas e começou a ajudar a carregar as coisas para o caminhão.
Já estava quase tudo desmontado e arrumado no caminhão. Foi ao seu quarto para ver se restara algo dela por lá. Por um momento, novamente ficou petrificada. Claudia estava lá. Aproximou-se de Ana da mesma forma, chorando e com o rosto todo ensangüentado. Ana estava congelada e inerte e nem que quisesse conseguiria dizer algo ou mover-me. Mas pensava que ela deveria dizer o que queria ao invés de ficar assombrando aquele local. Mas ela não disse. Sumiu de repente e Ana ficou sem saber o que aquela mulher tinha a revelar.
Mateus entrou pelo quarto dizendo que tinha comprado outra bicicleta para Ana. Um morador do prédio a havia ganho numa rifa ofereceu-a ao seu pai, pela metade do preço. Ele exibia a bicicleta todo feliz. Mateus achava que podia compensar todas as desilusões de sua filha com presentes e dinheiro.
Naquele momento ela só queria continuar naquele colégio santista, naquele apartamento mal assombrado, quem sabe descobrir o que a Claudia tinha a dizer, depois comer cachorro quente na praia sem esquentar a cabeça com nada... Ana não queria voltar ao martírio do colégio de freiras nem aquela rotina de brigas dos seus pais. Nenhuma bicicleta compensaria aquela nova desilusão. Mesmo assim, agradeceu o presente.
Mateus voltou com o caminhão de mudança, mãe e filha voltaram de carro. Duas horas depois estavam entrando na antiga casa e recomeçando o relacionamento doentio. As freiras fizeram questão de deixar claro que só a aceitaram "de volta" por que sua saída não afetou o ano letivo do colégio, como se fosse o maior privilegio do mundo estudar naquele mausoléu...
A vida foi encaixando-se novamente na rotina e nunca mais Ana soube do apartamento nem de sua habitante morta... Mas, pode-se imaginar que nunca mais ninguém morou em paz por lá.
FIM
Conto 4 (em dois capitulos)
O triangulo secular
Conto místico de Lou de Olivier, Um amor a três que atravessou os séculos e tornou-se inesquecível nas lembranças românticas de uma mulher de mil corações...
Capítulo I - Espanha ano de 1650
Isabelita era uma bela mulher, meio infantil para seus 28 anos, mas sua beleza fazia com que essa infantilidade passasse despercebida. Longos e negros cabelos emolduravam seu rosto oval e sua pele clara era realçada pelos grandes olhos verdes. Dançava flamenco perfeitamente, tanto que era primeira bailarina do corpo de baile de sua pequena cidade em Espanha. Apresentava-se como Paloma e era por todos admirada e cortejada. Mas queria mais, uma cidade maior, um grande amor, riqueza e poder. Tudo o que, certamente, jamais conseguiria dançando flamenco numa cidade interiorana.
Seu grupo de dança recebeu convite para apresentar-se em diversas cidades em varios
pontos do pais e ela viu, animada, que poderia finalmente realizar seus sonhos. Durante meses o grupo percorreu cidades e fez razoável sucesso. Tanto que, quando chegaram a Sevilha, ja eram esperados e bateram recordes de bilheteria. Na ultima semana de apresentações nesta cidade, um comerciante rico e poderoso aproximou-se de Paloma, ao final do espetáculo. Era um homem vivido, já com seus 45 anos, seguro de seus desejos, disse sem titubear que a beleza e jovialidade de Paloma o haviam encantado e queria que fosse sua esposa.
O homem tinha um magnetismo irresistível e Paloma sequer pensou em sua riqueza e poder, pensou apenas que estava apaixonada por aquele desconhecido e aceitou seu pedido. Ela apresentou-se ainda aquela semana para cumprir a programação e para dar tempo de treinar outra bailarina para seu lugar. E, logo, o grupo partiu sem Paloma que agora tornava-se a Senhora Isabelita Montez.
Passou a viver para o marido que lhe cobria de jóias e carinho, mas sentia-se vazia. Nunca mais fez sua dança flamenca, quase não saia de casa e, quando o fazia, era em companhia do marido. Pensava em ter um filho, mas este nunca vinha. E os meses iam se passando sem que nada de novo acontecesse em sua vida... Assistiam as touradas freqüentemente e era praticamente a única diversão de Paloma, ou melhor, Isabelita. Era assim que seu marido a chamava, era seu verdadeiro nome. Paloma parecia morta em algum lugar de seu ser...
Um dia, viu anunciado num enorme cartaz o toureiro Carlos Alberto. Um homem lindíssimo, de olhos e cabelos bem negros, um corpo perfeito e, na pintura do cartaz parecia dominar perfeitamente aquele pano vermelho, o touro e tudo a sua volta... Ela olhou encantada e não pode deixar de comparar com seu marido, barrigudo e sem nenhum charme. E, sem saber direito porque, passou a contar os dias em que veria aquele toureiro, ainda que a muitos metros de distância, na arena...
Colocou seu mais belo vestido negro com rendas vermelhas, combinando-o com o leque e, naquele dia deixou os cabelos soltos. O marido não gostou, achava sua displicência vulgar, mas esta manteve-se firme. Queria seus cabelos soltos naquele dia... Todos a olhavam e comentavam. Não ficava mesmo bem para uma mulher casada ir a uma tourada com os cabelos caindo pelos ombros, mas pouco se importou, no fundo sabia que era uma espécie de código. Algo, enfim, aconteceria naquele dia, que mudaria totalmente seu destino. E aconteceu...
Carlos deve tê-la avistado de imediato, pois parecia nem concentrar-se no touro que tentava atingi-lo. E foi uma tourada tensa, onde todos respiraram aliviados quando, finalmente, o grande touro tombou sem vida... Aplausos, assobios e inúmeras rosas vermelhas atiradas ao toureiro por todas as donzelas casadouras e suspirantes diante de tanta beleza, jovialidade e precisão. Todas, certamente, sonhando perderem-se em seus braços e em seu corpo... Carlos pegou uma das inúmeras rosas, beijou-a e, sem pensar, atirou-a num movimento perfeito. Esta foi cair aos pés de Isabelita. E, neste momento, um arrepio indescritível percorreu-lhe o corpo todo. Algo nem frio nem quente, uma sensação de desprender-se do corpo, uma espécie de orgasmo cósmico.
Meio ofegante, Isabelita apanhou a rosa e a encostou em seu peito e viu que o marido percebera sua perturbação.. Mas era mais forte que tudo e não o conseguiu mais esquecer aquele toureiro... O marido viajou, sempre preocupado com seus negócios e ordenou que não saísse para nada. Obedeceu por alguns dias, mas a imagem daquele toureiro lhe povoava a mente e não poderia seguir sua vida sem, ao menos, tentar conhecê-lo...
Arrumou-se cuidadosamente, ouvindo os lamentos de sua fiel criada que chorava e implorava que não saísse naquele dia. Sabia que haveria tourada logo mais a noite e que Carlos Alberto se apresentaria, então foi procurá-lo. Era mais lindo de perto, aliás, tão perto que poderia tocá-lo, se a vergonha não a tivesse invadido e não a tivesse feito até perder a fala. Ele, educado, gentil e, acima de tudo, sedutor, disse-lhe que era uma honra receber sua visita e que gostaria de saber em que poderia ajudá-la... Ela nada respondeu; novamente aquele arrepio frio e quente invadiu seu corpo e alma, sentiu uma vertigem que pareceu tirar-lhe o chão e girar tudo a sua volta.
Em segundos, Carlos a estava amparando e dai para que trocassem beijos desesperadamente apaixonados foram-se apenas alguns segundos.... Pela primeira vez na vida ela realmente conheceu o amor carnal, aquele sexo que faz flutuar e faz parecer que tudo a volta é mais belo e ameno do que a realidade mostra. Perdeu a noção das horas, quando voltou para casa já era noite e a tourada já estava acontecendo na arena. Recolheu-se aos seus aposentos e só pensou em dormir.
Na manhã seguinte, acordou tão feliz que parecia renovada. Era novamente Paloma e a vida parecia-lhe tao melhor. Ao banhar-se notou os hematomas nas costas e nas coxas, lembranças de uma amor maravilhoso que jamais conhecera. Pensava em como reencontrar seu amor, quando percebeu que o marido voltava de viagem... Passou uma semana recusando os carinhos do marido, dizendo-se indisposta, mas sabia que não poderia agir assim para sempre. Pensou em procurar por Carlos e conversar. Amava-o, acima de tudo, mas não queria iludir-se. Sabia que, em uma semana, ele terminaria sua temporada em Sevilha e partiria. Então, queria ter certeza de que ele a amava tanto quanto era amado por ela. Se respondesse sim, ela deixaria o marido e o acompanharia para onde fosse. Se negasse seu amor, ela tentaria esquecê-lo e seguiria com o marido que, enfim a amava e fazia tudo por ela.
Nem bem chegou, Carlos a beijou de uma forma inesquecível e ela já ja nem precisava perguntar se a queria. Não perguntou, deixou que a conduzisse pelos caminhos de um prazer indescritível... Carlos vestiu-se depressa e pediu que fizesse o mesmo. Ele teria
que sair para resolver uns assuntos de sua temporada, mas voltaria e a procuraria para conversarem.
Atravessaram a arena abraçados. Foi neste momento que seu marido chegou. Empunhando um florete (espada), disse apenas que faria com que Carlos nunca mais atravessasse o caminho de ninguém.
Isabelita não pensou duas vezes, colocou-se na frente de Carlos e ordenou ao marido que a matasse, mas poupasse Carlos... Lágrimas desceram pelos olhos incrédulos do comerciante. Não podia acreditar que sua amada esposa estivesse tão enfeitiçada, que pudesse dar sua vida por um homem que, há poucas semanas, sequer conhecia... Foi chorando muito que ele cravou-lhe ao florete (espada) no coração e a viu tombar já quase sem vida.
Arrasado, ele deu de costas e foi afastando-se lentamente. Carlos correu em direção ao touro reservado à tourada daquele dia. Um animal selvagem e difícil de domar, mesmo assim conseguiu montá-lo e dirigiu-se para onde o comerciante caminhava. Em minutos, fez com que o touro pisoteasse o comerciante, esmagando-lhe a coluna e quebrando-lhe o pescoço... Em seus últimos segundos de vida, Isabelita pode ver essa cena e partiu jurando que um dia reencontraria Carlos e, finalmente, viveria este amor...
Capítulo II - Brasil 2002
Ana sorriu meio bobamente, tentando entender o amor que a invadiu de repente. Havia passado, praticamente, a vida toda procurando um Carlos que nunca veio de verdade. Desde os três anos de idade, intitulava-se esposa do Carlos, o que, na época, era motivo de muitos risos, afinal, uma criança nesta idade pode saber o que de um casamento...
Em sua adolescência, dizia-se noiva do Carlos. Parecia caminhar ao contrário, primeiro esposa, depois noiva... Veio a juventude e Ana foi deixando esta estória de lado. Afinal, havia encontrado alguns Carlos, mas nada que a fizesse pensar em casar ou justificasse tanta espera. Seu primeiro grande amor não se chamava Carlos e o segundo namorado também não. Então, esta estória caiu no esquecimento. Agora, reencontrava um amigo de adolescência e, sem querer via-se totalmente apaixonada por ele. Não, ele também não se chamava Carlos, chamava-se Mauricio e tinham sido amigos por um período de seis anos aproximadamente. Depois perderam contato e só reencontraram-se no inicio do ano de 2002. Ele estava namorando, Ana já havia desistido de tentar.. Apaixonaram-se, mas foi um curto romance, muitas interferências externas atrapalharam o romance que apenas se iniciava. Ele atravessava um período bastante difícil e Ana envolveu-se muito tentando ajudá-lo. Com isso, o namoro, que apenas começava foi deixado de lado e tanto Ana envolveu-se com os problemas dele que acabou adoecendo.
Nesta fase, a grande sensibilidade de Ana a fez perceber que este amigo, agora quase namorado não era uma pessoa comum em sua vida. Era alguém com quem já havia convivido numa outra vida e com quem parecia ter um enorme karma. Aos poucos, foi revendo sua estória e entendeu que Mauricio fora seu marido comerciante que a havia assassinado... Mas a estória lhe parecia confusa, vinha-lhe em pequenas cenas que ela tentava juntar sem grandes resultados. Sabia que deveria ter uma terceira pessoa, mas não conseguia imaginar quem poderia ser. A única certeza que tinha era de que encontraria a terceira pessoa e o sinal seria um triângulo junto ao seu nome. Mauricio desenhava este triângulo, mas quem mais desenharia?
Sua doença lhe exigiu procurar muitos médicos, uns gentis outros nem tanto e, dentre esses médicos, um em especial: Carlos Alberto; gentil, atencioso, sempre disposto a ouvi-la e tentar ajudá-la. Ela teve que passar por uma cirurgia de emergência e, ao acordar da anestesia, entristeceu ao verificar que Mauricio não estava ao seu lado. Não havia sequer ligado para saber como ela estava. Entendia que ele enfrentava problemas, vivia as voltas com suas ex querendo reatar e mais um amontoado de complicações em sua vida, mas pensava que nada justificava seu desinteresse, já que, acima de tudo, eram amigos e ela já havia se sacrificado muito para ajudá-lo em época recente...
Ainda estava em repouso quando sentiu necessidade de procurar Carlos, não sabia exatamente porque, mas sabia que precisava encontrá-lo naquele dia. Levantou-se e regulou o banco do carro para conseguir dirigir e o fez com dificuldade até chegar na clínica em que ele trabalhava. Ao chegar, soube que ele havia batido seu carro então entendeu porque precisava aproximar-se dele, mas não tinham muita intimidade e ela precisou inventar uma desculpa, disse que precisava de umas vitaminas. Realmente precisava, aquela fase a estava deixando fraca, mas não era motivo para levantar-se em pleno repouso e procurá-lo naquela tarde infernalmente quente.
Ele, muito gentil, disse que mandaria entregar na casa dela, a vitamina que pedira. Ela aproveitou para dizer que, se precisasse de algo, uma palavra amiga, enfim, que a procurasse. Ele agradeceu, era meio tímido, apesar de ser um homem muito bonito e não ter motivos para timidez, parecia se desconcertar todo a qualquer tentativa de aproximação de Ana. Ela já havia descoberto que seus números eram idênticos na numerologia e seus signos combinavam, mas Carlos lhe parecia apenas uma paquera que nunca daria resultados. Afinal, tanta timidez a acabava afastando dele, até ela mesma, apesar de ser bem extrovertida, às vezes sentia-se tímida diante de tanta reserva da parte dele.
Voltou para casa e retornou ao seu repouso e, surpresa, recebeu dois dias depois, telefonema do laboratório que confirmava a entrega e o preço do medicamento autorizado pelo Dr. Carlos... Neste momento, não pode deixar de comparar os dois amigos que tentava amar. Mauricio, amigo de tantos anos que nem sequer ligou para saber como ela estava. E Carlos, amigo recente que, mesmo tendo batido seu carro e estando de viagem agendada para um congresso, ainda encontrou tempo para enviar-lhe o medicamento... Pensou em ligar e agradecer, mas resolveu fazer melhor. Assim que se recuperou foi a uma loja esotérica e comprou-lhe duas pedras, uma para que ele colocasse no carro e outra para ele colocar na casa dele. E levou-lhe, pouco antes de sua viagem para o congresso. Ele, tímido e muito corado, agradeceu... Durante a viagem dele, Ana resolveu arrumar sua casa e, entre os guardados, encontrou uma receita emitida logo no inicio de seu tratamento com ele. Só então notou o triângulo na assinatura dele... De repente veio-lhe uma cena de amor vivida por eles e ela escreveu em forma de poesia. Ficou pensando em como entregar a ele. Achou que deveria agir com naturalidade. Seu tratamento com ele ainda duraria alguns meses e poderia tentar falar aos poucos. Ela aguardou que ele retornasse de viagem e, meio tímida , perguntou-lhe se conhecia a Espanha. Respondeu que tinha vontade de conhecer. Sem querer, Ana disse que ele já havia vivido lá e passado por Sevilha. Ele não pareceu espantado, mas também não teve curiosidade de saber mais.
Uma semana depois, Ana entregou-lhe a poesia. Ele leu, ficou tão corado que chegou a arroxear o rosto e o clima entre os dois, ao invés de se descontrair, ficou mais tenso
ainda... Engraçado é que Carlos era tímido com Ana, mas com as outras ele soltava-se muito. Ana sabia que ele saia, às vezes com outras e tentava entender isso, afinal, porque tanta timidez com ela? Até porque ela, sempre compreensiva, vivia dizendo que qualquer comentário que ele fizesse seria entendido e respeitado por ela. Por muitas vezes ofereceu-se para ajudá-lo e disse inúmeras vezes que, se ele achasse que ela aprofundava-se muito nos assuntos ela nada mais diria. E, se ele pedisse para ela ir embora, iria como chegou.
Mas, nesses momentos ele nada dizia ou então respondia que queria que ela ficasse. Então Ana ia ficando e tentando entende-lo... Ana tentou tudo por uma maior aproximação, no fundo, queria apenas conhecê-lo mais profundamente, sentir seu beijo, saber se o amor entre eles seria novamente tão mágico ou se tudo era apenas ilusão... Presenteou-o com pedras diversas, poesias, cartas onde tentava explicar a estória que já tinham vivido e o que sentia no momento... Ele parecia cada vez mais distante dela...
Nesta época, Ana encontrou por acaso, Mauricio, não uma mas duas vezes. Seus caminhos pareciam tão cruzados que acabavam encontrando-se involuntariamente. E o magnetismo de Mauricio a atraia. Tanto a atraiu que Ana fez amor com Mauricio, mas sem querer, durante o tempo todo só conseguia pensar em Carlos Alberto. Mesmo assim, chegou a pensar em reatar com Mauricio, afinal só pela amizade de tantos anos,
valeria a pena estruturar a relação. Perguntou a Mauricio se queria uma relação séria, apenas amizade ou amizade colorida com ela. Ele, sempre com a intenção de não envolver-se, optou pela amizade colorida e decidiram que deixariam a vida acontecer sem forçar sequer um encontro entre os dois .
Ana escreveu a Carlos, relatou o ocorrido, disse que sentia por ele algo muito forte que a fazia pensar nele ate mesmo com alguém que tinha sido tão amado por ela... Mas o medico não pareceu muito animado. Nunca tinha tempo para encontrá-la a sós, parecia ter medo da forma como ela se expressava e via a vida e, assim, os meses se passaram... Ana sabia que era muito mais do que um reencontro de amantes. Mauricio carregava o karma de tê-la assassinado e Carlos carregava o karma de ter assassinado Mauricio. Ana sabia que os dois deveriam reencontrar-se para um aprendizado de paz e que ela era o elo de ligação entre eles. Então propôs sociedade comercial aos dois. Achou que seria uma forma de aproximá-los e, quem sabe, solucionar esta estória em definitivo. Mauricio pareceu animado. Carlos não manifestou-se. Continuou dizendo não ter tempo para nada, nem mesmo para uma conversa sobre negócios.
E ela continuava perdida e dividida neste amor. Sabia que Mauricio, tinha o dom de hipnotizá-la com um simples olhar, mas Carlos parecia prende-la, sem sequer tocá-la. Então seguia sozinha, sem nenhum ao seu lado, até ter certeza de quem a acompanharia pela vida... No aniversário do médico, Ana deu-lhe um jogo de caneta e chaveiro e um buquê de rosas vermelhas, esperava que se lembrasse da rosa que lhe jogara da arena e que começara este amor imenso, mas ele pareceu nada lembrar-se... Por fim, deu-lhe um CD com musicas especialmente escolhidas para ele. Era sua última tentativa. Seu tratamento já havia terminado e as recepcionistas já a interrogavam para saber o que ainda tinha a falar com o Dr. Carlos, cada vez que pedia para vê-lo...Esperou que ele a contatasse, mas ele não o fez...Tentou falar com ele, ligou várias vezes. Ele nunca tinha tempo, ate disse que estava num momento de curtir a sobrinha e a família, como várias outras fases que ele atravessara durante o tempo em que Ana tentou aproximar-se e o encontro nunca acontecia. Talvez o médico tivesse medo ou julgasse ser possível aguardar momento oportuno para um encontro, mas não havia mais tempo. La se iam muitos séculos e Ana precisava entender esse amor e os
caminhos que o percorriam, então insistia, mas ele não mostrava-se preparado para enxergá-la com a importância que deveria ter na vida dele. E ela só queria conversar, por alguns minutos a sós, saber o que realmente lhe passava pela cabeça depois de quase um ano sem nenhum contato mais intimo, apenas cartas, poesias, pequenos diálogos trocados as pressas durante as consultas e... lembranças de uma época que parecia não mexer mais com ele....
Em uma das vezes uma mulher atendeu dizendo que o Dr. Carlos estava em atendimento, não poderia falar com ela. Poderia ser uma enfermeira ou quem fosse, mas com intimidade para atender a um celular, fez Ana repensar toda a sua trajetória de amor... Começou a pensar que, talvez tivesse morrido e vivido grande parte de sua vida, esperando por um amor que foi só seu... Viveu sozinha um sonho que deveria ser a dois. E então começou a entender que as estórias não se repetem de uma vida para outra. Apenas assemelham-se e dão às pessoas a oportunidade de crescer, amadurecer e tomar decisões mais sabias e realistas...
Neste período, novamente seu caminho cruzou-se com Mauricio. Precisou dele para resolver assuntos que, para ela eram uma complicação, mas para ele eram bem simples. Novamente seu magnetismo a atraiu, mas dessa vez, ela queria pensar melhor e nem um beijo aconteceu. Ele estava as voltas com uma nova relação que ele tentava terminar, mas a pessoa não aceitava... Ironia, os tempos mudaram as personalidades de
Carlos e Maurício. Aquele que era galante e conquistador, voltou tímido e o comerciante reservado tornou-se um conquistador...
Ana sabia que esta seria a ultima chance para recuperar seu romance e decidir com quem seguir a vida. Se quisesse reconquistar aquele que, através dos tempos, foi seu marido e que, por tirar-lhe a vida, tinha um imenso karma com ela, este seria o momento. Deveria ter paciência com sua mais nova conquista, esperar que resolvesse da melhor forma possível e abrir-lhe seus braços, desta vez em definitivo, para aceita-lo com todos os seus defeitos... Por outro lado, o médico não estava de todo perdido, se ele enxergasse a realidade, percebesse o quanto a deixara sozinha, provavelmente seria seu homem ideal, até mesmo pela identificação o numerológica e astrológica... E ela ainda não tinha certeza de qual deles realmente a amaria como sonhara a vida toda e a faria feliz como sempre quis ser...
Ana decidiu não pensar em nenhum dos dois... Era um lindo domingo ensolarado e ela resolveu sair, curtir o sol e a vida. Entendeu, finalmente, que deveria viver por si mesma e nunca mais pensar em entregar-se cegamente, muito menos morrer por este amor que ainda a arrebatava. Que não mais pertencia a Carlos ou Mauricio ou outro homem.
É o grande amor que pertence a Isabelita, Paloma, Ana e tantas outras que vivem nela e viverão para sempre em suas lembranças...
FIM Conto 5:
Inferno no céu - Conto mistico de Lou de Olivier
escrito em 03/12/2003, publicado em diversos sites e jornais Brasil e Europa
São 3 planos principais: Físico, espiritual e intermediário.
O físico mostra o fato em si, o espiritual mostra como o fato se desenvolve no Universo e o intermediário mostra a visão de quem vive o fato em si. Há outros planos como o desconhecido, o kármico, etc. que, em alguns momentos, interferirão com dados importantes.
Cena 1: Plano Físico: Um carro de luxo, em alta velocidade, derrapa, capotando várias vezes. Transeuntes correm até o veículo, um deles telefona ao resgate, enquanto os outros tentam ver como estão as vítimas... Nota-se que há apenas uma mulher presa aos escombros. Não parece ter ferimentos externos, mas, pela gravidade do capotamento certamente deverá apresentar lesões internas graves. Está desacordada. Alguém aproxima-se o suficiente para reconhece-la, exclama: - Gente! Meu Deus!!!, É a modelo e atriz Marluze Corner!!! Ela é uma celebridade! - Depois desse acidente, acho que ela "era" uma celebridade... (alguém comenta ironicamente)
Plano desconhecido: A alguns metros dessa cena, um ser alto, sem um sexo definido, de longas e esvoaçantes vestes claras, observa a cena, sorri ironicamente, desintegra-se.
Plano físico: Ouve-se vozes, sons de sirenes e helicópteros, insinuando-se que o socorro está a caminho.
Plano intermediário: Marluze vê-se num glamouroso desfile de modas, todos a aplaudem e enaltecem. Em seguida, um coquetel, a estrada... tudo em flashies muito rápidos que misturam-se à sua mente. A alguns metros da curva, avista uma figura, um ser estranho, sem fisionomia, todo de preto, capa, luvas, chapéu, botas, tudo preto. Faz-lhe um sinal para parar, ela desvia o carro, perde a direção, derrapa. Olha pelo retrovisor e percebe que não havia ninguém ali. Mas agora é tarde, o carro já iniciou a capotagem.
Plano físico: Do outro lado da cidade, num hospital público, uma mulher entra desesperada , carregando seu filho nos braços. Avista um homem vestido de branco. Calcula que seja um médico:
- Doutor, pelo amor de Deus, socorre meu filho!
- Calma, mãe. Eu não sou médico, sou só atendente. Mas fica calma, vou ajudar a senhora a fazer a fichina e... - (desesperada)
- Que ficha, moço! Meu filho tá todo queimado! Fui acender a lamparina, sei lá o que aconteceu, o fogo pegou na roupinha dele... Queimou ele todo! (chora)
- Calma, senhora, deixa eu ver (pausa tensa) Ah... senhora espera sentadinha aqui que vou pedir entrada de emergência, tá? Quer dizer... Péra ai que já venho... (afastando-se, resmunga para si mesmo) Eu devia ter sido jogador de futebol... Que desgraça lidar com isso...!
Plano desconhecido: O mesmo ser do plano desconhecido anterior assiste à cena, mas dessa vez, está sério, observa alguns segundos e desintegra-se.
Plano intermediário: A criança queimada aparece montada num cavalo, comandando uma tropa que segue incendiando toda uma cidade.
Plano físico: Um hospital de luxo está cercado por repórteres, curiosos e todos os tipos que já descobriram que a grandiosa estrela Marluze Corner está sendo operada ali. Dentro do hospital, amigos e parentes transitam impacientes. Alguns cochicham, outros tentam consolar os mais íntimos. De todos, obviamente, a mãe é a mais inconsolável.
- Minha filhinha, meu Deus!!!
- Calma, madrinha, ela está sendo operada pelo melhor cirurgião do país.
- Isso mesmo! O Dr. Motta Neto fez doutorado em" Blarblard" e já salvou vários casos tidos como impossíveis.
- Blarblard??? Oh, então é mesmo um super cirugião...
- Tem certeza?!.
- Absoluta! Quem consegue terminar um doutorado em Blarblard não se torna apenas um grande cirurgião, torna-se um... um deus do bisturi...Ele é o melhor e vai conseguir!
Todos abraçam-se solidários.
Plano espiritual: Uma equipe de médicos, enfermeiros e assistentes circula a mesa de cirurgia, onde também espiritualmente a "estrela" está sendo operada. A alguns metros dali, numa redoma de vidro, um ser de pura luz multicor fala e sua voz ecoa por todo o ambiente,
- Abandonem o caso!
- Mas, Grande Mestre, agora que conseguimos salva-la...
- Abandonem o caso!
- Mas, porque???
- Resolvi que Blarblard não vale mais nada no currículo de ninguém. Obedeçam-me! Abandonem o caso!
Cabisbaixo, o cirurgião faz um gesto para que a equipe se disperse. Todos afastam-se lentamente da mesa de cirurgia ao mesmo tempo em que as luzes são desligadas.
Plano físico: Na sala de cirurgia, a equipe continua operando Marluze. Todos estão aliviados, pois ela já não corre risco de morte. O cirurgião e a equipe irradiam uma bela luz branca que parece guiá-los durante toda a cirurgia. De repente, essa luz apaga-se, pode-se ver apenas a luz que vem do refletor da sala de cirurgia. Sem saber bem porque, todos sentem-se desgastados, mas ainda confiantes. Em segundos, o quadro reverte-se, uma hemorragia que parecia estancada recomeça a jorrar incontrolável, a modelo apresenta dificuldades para respirar...
- Mas o que está havendo?
- Pressão caindo rapidamente, doutor....
- Parada cardíaca iminente
- Desfribrilador, rápido!
Plano Kármico: O ser de luz recebe várias pessoas que chegam, enquanto um mensageiro anuncia:
- Estas pessoas viajavam no vôo 215 para Money City. A maioria executivos em viagem de negócios. Temos também uma criança queimada por imprudência da mãe. E a modelo que, como sempre, está atrasada, mas já está a caminho. Aquela que o Mestre ordenou que abandonassem o caso... O ser de luz nada diz, apenas alterna suas cores numa comunicação visual. O mensageiro comunica aos recém-chegados...
- Cada um de vocês terá direito a 5 minutos diante do nosso ser maior, a luz que comanda o Universo. Nestes 5 minutos poderão perguntar, explicar, enfim, falar o que quiserem. Terão direito também a escolher se querem reencarnar, desintegrar ou continuar eternamente em uma das várias dimensões do Cosmo. Seja qual for a escolha, terá prazer e dissabor, regras a serem cumpridas, satisfações a dar. Caso fujam das promessas feitas aqui, serão imediatamente resgatados para novas negociações. E, após escolherem seus caminhos, não terão direito a reclamação de nenhuma espécie. E, claro, jamais se lembrarão desse encontro com o Mestre Maior. Seguirão a vida adorando ídolos e fantasias... acreditando que bastará rezarem bastante e terão seus pedidos atendidos de pronto... Porém, a realidade de suas trajetórias já estará traçada e escolhida por vocês mesmos... Está bem para vocês?
Plano físico: No pequeno hospital de subúrbio, o atendente consola a mãe desesperada;
- Meu filhinho, tadinho!!! Não posso acreditar nisso !!! (chora)
- Calma, mãe. Sei que é difícil, mas tente ser forte nessa hora...
- Que forte, que nada! Eu quero morrer!!! (grita histérica)
- Pensa nos seus outros filhos, senhora. Tente ser forte e cuidar deles...
- Eu sei porque isso aconteceu. Se eu fosse rica, se levasse meu filho num hospital chique, tinham salvado ele...
- Senhora, a gente fez o que pode para salvar seu filho...
- Mas não tem equipamento, não tem nem anestesia neste hospital, moço! como querem salvar alguém?!.
- Quer saber, a senhora tem razão. Esse hospital é uma decadência, mesmo! E eu vou sair daqui antes que eu enlouqueça! Ô, Maria, vê se acha um calmante para dar pra essa mãe.
- Não tem nenhum... serve água com açúcar?
O atendente acena, já saindo, cabisbaixo.
Plano desconhecido: A modelo Marluze, vestida como babá, brinca com a criança queimada. Esta, agora, está vestindo uma camisola esvoaçante e não tem nenhuma marca de queimadura. As pessoas mortas no acidente aéreo estão de beca, com partituras, cantando num coro.. Todos divertem-se muito.
Plano físico: no hospital de luxo, a mãe de Marluze está histérica:
- Seu assassino, desgraçado! Você matou minha filha!!!
- Senhora, por favor, entenda. Fizemos o impossível, foi uma fatalidade... é a primeira
vez, em vinte anos, que eu perco um paciente e...
- E sua primeira vez tinha que ser matando minha filha???
- Madrinha, tente se acalmar...
- Senhora, não sei o que dizer, entendo o que sente e...
- Entende nada! Eu vou acabar com você! Vou te processar. Vou te destruir!!! Nunca mais vai operar ninguém seu monstro assassino!!!
Flashes de fotos, câmeras filmando, pessoas acotovelando-se por um melhor ângulo, enquanto a mãe continua gritando histérica, o médico afasta-se cabisbaixo e pode-se ver a cena num plano alto.
Plano desconhecido: a modelo e a criança queimada formam uma roda com outras crianças, todos cantam alegremente. O coro continua cantando um pouco afastado dali...
Plano espiritual: O ser de luz senta-se em seu trono rodeado por um juri e dois advogados. Ouvem-se seis badaladas e o ser fala:
- Está na hora de decidirmos quem resgataremos amanhã. Advogado de defesa, promotor, prontos?
- Sim, Mestre.
- Então, apresentem-me os casos.
FIM
Conto 6
Todas as minhas vidas (relato de um coma)
Conto de natal fictício de Lou de Olivier
É difícil acreditar, mas descobri que o passado e o futuro são apenas partes do presente . O passado continua existindo e o futuro já está concretizado. São as pessoas que nascem e morrem e acabam conhecendo apenas uma parte e uma época do Universo. E, assim, ficam iludindo-se, imaginado serem criadores de tudo o que simplesmente já está lá. Acham que ajudam a construir o futuro ou tiveram alguma influência no que passou.
Foram poucos segundos, mas me transportei ao futuro, onde já vivo em outro corpo. Lá no futuro não há limites de espaço ou tempo, não existe dinheiro, ninguém precisa comprar nem pagar nada. Todos flutuam de um lado a outro sem necessidade de nenhum tipo de transporte. No futuro é possível comunicar-se apenas pelo pensamento, uma telepatia que dispensa telefones, Internets, e tantos recursos que, para quem vive o presente são fundamentais. E a vida parece abençoadamente eterna por uma energia indescritível.
Também fui ao passado. Usando um lindo e armado vestido azul tão claro, que quase era branco, caminho num grande bosque.... O passeio pelo bosque deveria me dar paz mas, ao contrário, me deprime e amedronta. Parece não haver ninguém, nenhum ser vivo neste bosque, mas ouço algo, vozes, sons semelhantes a um bip e luzes. É difícil distinguir os sons e as luzes e nem sei de onde vêm. Tento entender o que estão falando, mas parece tudo tão confuso.
Penso que talvez falem sobre mim, comentem algo que aconteceu comigo e que, sei lá porquê eu não me recordo ou podem apenas falar coisas sem sentido e nada sobre mim. Continuo caminhando até avistar meu grande amor. Como sempre ele me espera, impaciente! Sorrindo, corro ao encontro dele: Um abraço forte, muitos beijos apaixonados e quase me esqueço das luzes, vozes e sons, que parecem aumentar cada vez mais. Um frio intenso envolve meu corpo causando calafrios. E os sons aumentam. Pergunto se ele sabe de onde vêm; ele apenas sorri e me beija novamente...
O futuro volta a me invadir e tudo parece tão melhor do que o passado que não resisto; vou ao futuro. Tento convencer meu amor a ir comigo e experimentar a sensação de total liberdade e elevação, mas ele se retrai. Diz que, no futuro, pertenço a outro e ele não quer interferir na minha decisão.
Começo a flutuar, minha fisionomia vai se modificando enquanto minhas vestes são substituídas por uma longo e esvoaçante vestido e torno-me mais uma habitante do futuro. Em meio a multidão procuro meu novo amor, mas não consigo encontra-lo. Sinto um pouco de saudade do passado, mas logo me integro a realidade do futuro, faço amigos, divirto-me ao perceber que também sou telepata e posso comunicar-me com todos sem sequer abrir a boca.
De repente percebo as mesmas luzes, vozes e sons do passado; aquele bip insistente e avisto um homem que me sorri. Está meio escuro, não consigo enxergar nitidamente sua fisionomia. A medida em que flutuo, vou me aproximando mais dele. Os sons e luzes ficam mais fortes.
Bem próxima dele, noto que ele é o mesmo homem do meu passado. Mas, se é ele mesmo, se foi ele o tempo todo, porque não veio comigo quando o chamei? Porque disse que eu teria que decidir com quem seguiria? E porque, estes sons e luzes sempre aumentam quando me aproximo dele? Ele nada responde, continua sorrindo, estende as mãos; tocando em meu rosto. Novamente sinto-me invadida por estranhos calafrios, tenho a sensação de estar girando no ar, mergulhando num abismo de prazer.
Finalmente ouço com nitidez a voz dele, que diz que está me perdendo e precisa reverter esta perda. Mas, estranhamente, ele fala no plural, como se não falasse só por si. Diz: "Estamos perdendo-a, precisamos reverter esta perda". As vozes se misturam aos sons do bip e não consigo entender o que ele quer dizer, a quem se refere. Sinto choques em meu corpo, tenho a impressão de que ele me sacode violentamente, enquanto grita para que eu reaja. Não sei que tipo de reação ele quer que eu tenha. Sinto-me frágil e magoada pela mudança brusca nas atitudes dele. Estava tão carinhoso de repente me sacode violentamente e grita, grita e aquele bip martelando meu cérebro...
Chorando, resolvo retornar ao passado. Acho que estava bem melhor lá. Dirijo-me à passagem, tento entrar mas não consigo. A passagem está fechada, tudo está muito escuro, o passado parece morto, extinto e já não posso retornar. Conformada resolvo instalar-me definitivamente no futuro, mas a passagem também acaba de fechar-se.
Tudo parece ter-se apagado, não há nenhuma luz e o bip agora tem um som muito longo e mais agudo do que nunca. As vozes continuam cada vez mais distantes, o homem que já não sei se amo continua me sacudindo e grita cada vez mais alto. "Por favor, não vá, volte para nós". Eu choro desesperada e não o entendo: Se me quer, se pede para que eu volte, porque me sacode e humilha?
Sinto um violento choque que parece agitar meu corpo todo. O bip começa a tocar de forma intensa e ritmada, as vozes parecem sussurros. A escuridão, aos poucos, dá lugar a uma neblina e, finalmente, vem a claridade. Olho ao redor, tudo está branco. Tento entender onde estou. Não há mais o bosque do passado, nem o espaço liberto do futuro. Há só um cômodo todo branco, cheio de aparelhos estranhos e luzes enormes num lustre gigante, pessoas vestidas de branco e o homem dos meus sonhos, que agora parece bem mais calmo. Aproxima-se e me ajeita na cama branca, dizendo: "Bem vinda de volta à vida e feliz natal!"
Tento comunicar-me por telepatia, não consigo; tento mover meus lábios para perguntar se aquela encenação toda foi um trote ou algo assim, mas meus lábios estão imóveis. Ele diz algo a alguém, sei que se refere a mim, mas não ouço direito e sai do cômodo. A cama começa a mover-se, duas pessoas a empurram por longos e brancos corredores. As pessoas vão comentando, enquanto empurram a cama:
- Que sorte, você viu? Depois de um capotamento como aquele, nenhuma fratura, nenhuma hemorragia, só uma parada cardíaca...
- Só parada cardíaca? Você acha pouco???
As pessoas riem, alguém passa por elas e diz:
- Feliz natal!
- Para você também.
- Feliz natal!!!
Obviamente deve ser natal. Só não entendi ainda se é natal no passado ou no futuro. Ou talvez apenas seja natal no presente. Suspiro e avisto um anjo que sobrevoa o teto branco. Olho bem para ele e vejo o mesmo homem que estava no meu passado e no meu futuro. E que, há pouco, deu-me boas vindas e desejou-me feliz natal. Penso que deve ser mesmo um anjo, presente de Papai Noel.
Então finalmente adormeço...
FIM
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Psicopedagoga, Psicoterapeuta, Especialista em Medicina Comportamental, Bacharel em Artes Cênicas, Licenciada em Artes Visuais. Precursora da Multiterapia, Criadora do Método Terapêutico do Equilibrio Total/Universal. É também Escritora, Dramaturga, Diretora Teatral, Poetisa e Apresentadora de TV. Ex atriz, ex bailarina classica, ex coreografa. Atualmente pratica Dança do Ventre, tribal e Flamenco. Saiba mais sobre Lou de Olivier em currículo, no menu à esquerda.
Ao Escritor dos Escritores, DEUS, que diariamente escreve a historia de cada vida do planeta, agradeço estes meus dons: inspiração de meus escritos,
da minha arte, das minhas pesquisas cientificas, minhas atuações em Saúde, Arte e Educação". By Lou de Olivier
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